terça-feira, 8 de abril de 2014



Cuidado, o céu cede na envergadura das torres, e ninguém quer ser esmagado pela sombra de seus delírios. Coragem! Quando o calor te desperta, já pressentes o labor a ter simplesmente existir. A agulha da consciência costura teu corpo a cada fracasso. E quem não fracassa! E para que consciência! E assim, de ombro a ombro, vais-te a bater contra a multidão para te sentires vivo, até perderes o mais precioso dos bens: a palpitação do infinito, que em teu peito recorda o ser a vida absurdo.

Jason de Lima e Silva

terça-feira, 18 de março de 2014



O corpo é vencido pelo mormaço das ocupações ordinárias, e se os pensamentos vagam sobre as montanhas da imaginação e pendem os olhos para os sonhos estilhaçados das estrelas, somos sorrateiramente abraçados pelo tédio de tudo o que é finito, e mergulhados na escuridão de um quarto revemos claramente o que o dia nos levou. Assim o sono nos sepulta o peso das horas, assim nos sopra a brevidade de suas brisas e o canto de seus arruinados. Rimos com os amigos e rimos sempre ao lembrá-los.

Jason de Lima e Silva

terça-feira, 4 de março de 2014



Grandes são as virtudes que desmoronam em meu peito. Crua demais é a vida para abençoá-la de promessas. E como viver sem promessas! O anjo de teus olhos caiu em minhas mãos como gota incandescente de chuva. E já não seguro mais a pele que nos encobriu noite passada num só corpo, num só ruído, numa única promessa.
Jason de Lima e Silva

domingo, 26 de janeiro de 2014



E quando nos vimos já pisamos o charco de nossas infinitas obsessões, alegres convivas das noites sem prumo, centauros então voltam a lutar em nossas almas, zomba a natureza das mais justas pretensões de uma vida, e por pouco um único instinto não desfaz a promessa de sermos acolhidos, troveja o céu sobre nosso pequenino mundo, e uma farpa da realidade já nos fura os olhos mal abertos, e ora perplexos da dissonância de tantos humores, perdemos as coisas mais próximas, e aprendemos tudo sobre nada mais dizer.

Jason de Lima e Silva

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014



Dorme. Acorda. Olhos abertos. Mil cavalos galopam furiosamente por nuvens e nuvens de ideias. É madrugada. Nada se espera, o que está feito, está feito. Os animais bebem ao longo do rio. Ali, no deserto do mais raro sol, saber-se mortal é também amar o que se perde. Afinal, quem suportaria a eternidade? O murmúrio de nossos ancestrais e o último alento da noite. Dorme. A vida é um sonho sem volta.


Jason de Lima e Silva

domingo, 22 de dezembro de 2013



Esconda tuas virtudes no monte de argila, molde sempre o que aparece e guarde tua dor no coração da terra. Quando o vento se fizer brisa, cante para o deus que na árvore se esconde e peça às nuvens para te livrar do peso dos dias. Tudo é tão breve que toda leveza é cara. Nada espetacular chega para além do que já cultivamos e há sempre o risco de perdemos o que possuímos. Não há culpa nem salvação. Nem desculpas ao que não podes, nem esperanças ao que não tens.


Jason de Lima e Silva

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E nas rugas o traço de tua primeira dor.






E nas rugas o traço de tua primeira dor, o hábito de todos os silêncios, a compenetração da matéria em seu respeito ao sol, nuvens que cortam as linhas da memória no rosto e cruzam a intimidade de teu olhar, e na encruzilhada desses caminhos a fisionomia de tudo o que foste e sobeste abandonar, o mesmo perigo pressentido sempre, os amigos esquecidos ou esperados, os amores vividos por distração ou perdidos por muito zelo, assim vibram na testa teus pensamentos não pensados, e nas têmporas, a coragem de não lamentar, quantos fracassos te custou a vida, e há ainda lugar para mais uma ilusão.

Jason de Lima e Silva