sexta-feira, 22 de abril de 2016

A política do repulsivo


Na noite do dia 17 de abril, quando a câmara votava o impedimento presidencial, alguns amigos me diziam já ter vomitado. Era claro uma força de expressão. Fraco meu estômago, evitei ver o que acontecia e, quando o fiz, consternou-me o bizarro teatro montado: a razão jurídica do processo perdida na retórica de tudo o que é meu pelo sim, menos deus, que passou a ser de todos para salvar o país. Dei-me conta de ter a política brasileira se convertido num problema de intestinos. A indigestão me pareceu imediatamente a mais natural das reações, contando ainda haver, mais do que petróleo, alguma reserva de sensibilidade entre nós.
Na Crítica da faculdade de julgar (1790), Kant admite uma representação artística do feio. Uma única exceção: a feiura que gera asco. O objeto se confundiria com a sensação de repúdio e o prazer de sentir e pensar livremente a beleza da obra seria interditado. Ainda que culturas diferentes tenham relações distintas com o asco e a beleza, talvez pudéssemos nos perguntar o quanto e por que a nossa política hoje é capaz de produzir mal-estar no seu espectador, dentro e fora do país. Seríamos sempre e somente espectadores do repugnante? Outros sentimentos, tais como o ódio, não dariam alguma naturalidade ao asco, a ponto mesmo de transformá-lo em prazer, por uma lógica do horror? 

Honoré Daumier, Câmara dos deputados, 1834 (litografia)

            Ouçamos Jair Bolsonaro. Criar polêmica e abrir a boca para exterminar o outro sem entender sequer do que fala, é sinal hoje de força e caráter. Para muita gente. Isso não seria tão facilmente possível sem a produção midiática e política de um colapso que, por sua vez, favorece o aparecimento de redentores da ordem e da moralidade. E é tal força e caráter que cita de saída Eduardo Cunha, como um nome que entrará para a história. Resta-nos saber que historiadores honrarão esse nome. Mas Bolsonaro conseguiu ir mais longe: ele ressaltou a memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Um nome que seu filho ao fundo repetiu com o movimento dos lábios, como se invocasse a sagração de um ídolo messiânico. Bolsonaro com isso realmente se torna um mito. Um mito de pavor não apenas para Dilma, mas para toda sociedade brasileira. O coronel Ustra foi chefe do DOI-CODI (1970-1973) e há registro de mais de 300 torturados sob suas ordens. Lutavam, aliás, por democracia. O artigo de Carla Jiménez de El país dá uma boa ideia de quem foi o coronel e do que foi capaz durante a ditadura. Devotá-lo abre um caminho repudiável para nossa cultura, à custa do que também a história lembra para não ser repetido.
            Mas de onde vem essa necessidade de produzir e recomeçar sempre e novamente a dor no outro? O sofrimento não escolhido, como uma doença, já não seria um mal suficiente à condição humana? Que tipo de prazer se oculta neste processo de impeachment? Se confiarmos nos discursos que prometem mudar o destino do país, não encontraríamos, entre deus e tantos familiares, o semblante do coronel Ustra? Quem suportaria o lugar do torturado, ou da torturada, nos tempos do coronel e neste momento histórico?

Jason de Lima e Silva

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O monólogo do ódio



        Fala-se de crise no Brasil. Para isso há logicamente uma causa. Apressa-se a encontrá-la. A corrupção, sim, de quem? Do governo, e de seu partido, como se nele estivesse isolada a síndrome de nossa cultura e Eduardo Cunha nada enrascado por suas contas em bancos suíços. É preciso então expurgar esse governo do mundo. Ainda que justo o ímpeto, o raciocínio é tão simplório quanto grave pode ser o efeito. Primeiro porque não somos governados por um único poder. O poder político, no sistema de democrático moderno, organiza-se em poderes: o executivo, o legislativo e o judiciário, com seus privilégios e princípios, suas ordens e disputas. Mas há ainda o poder médico e o poder dos laboratórios na gestão da saúde e da doença, o poder financeiro na gestão das rendas e dos negócios, sem falar na mídia, cuja centralização no Brasil transforma a notícia em fato, o fato em verdade e a verdade em juízo de valor. Quem nos governa, afinal, e como somos governados?


        Desde as últimas eleições para presidente, odiamos e odiamo-nos em matéria de política. Como foi fabricado esse afeto, e por quais interesses? Chegamos a um ponto que um gesto contrário à reatividade vigente é à queima-roupa interrompido, por alguma notícia cuja fonte ou cuja interpretação não se discutem. Quem ouviu, já sabe, quem sabe, defini, quem defini, não ouve. Há um momento na Antígona de Sófocles que Hêmon diz ao poderoso rei Creonte: “Se falaste certo acerca das coisas não posso dizer... mas os outros podem ter boas ideias”. Cheio de razão, Creonte não escuta o filho e se dá mal. As tragédias gregas têm suas lições: se julgas tudo péssimo, espere o pior, se não ouves, terás de ver.

        Mas quando tudo está à mão, que vale saber dos outros? Compro, logo existo. Tenho, logo sou. Posso, logo digo. Digo, logo sei. A opinião é tão rápida e certeira quanto uma pedra na cara: não importa em quem se acerte. O diálogo demora: tenho de entender de onde parte meu interlocutor, avaliar as suas e as minhas deduções, considerar nossos limites em torno do assunto. Tudo isso é muito lento. E para que pensar os problemas políticos de uma sociedade, embrenhar-se nas suas contradições históricas e situá-la no cenário internacional, se já se reconhece a fonte de seu mal, como um santo reconheceria de longe o chifre do capeta? A brevidade das informações tem feito a abreviação das ideias. Juntamos tudo para repetirmos o mesmo. Pensar é ponderar, e ponderar exige ouvir, pressupõe abertura para a diferença. Reagimos e queremos ação para mudar o país. Mas a convicção parece ser o nosso maior perigo atualmente.


Jason de Lima e Silva

Publicado também em: http://ndonline.com.br/florianopolis/colunas/opiniao/294562-o-monologo-do-odio.html