sexta-feira, 1 de maio de 2020

Anotações de quarentena III

O sequestro do último adeus

Publicado originariamente no 
Le monde diplomatique/Brasil 
no dia 24 de março 

Jason de Lima e Silva

Se, sob o sol, nada mais velho e vil que a morte,
quem viu, na vida, novidade em estar vivo?
Belchior, Até mais ver, 1993

     A morte é uma ruptura para quem fica. Para quem vai, pouco se sabe. O mistério grava o coração das diferentes culturas: aparece na poesia, no canto sertanejo, longe da retórica enfadonha dos pastores. A ruptura da morte significa, por um lado, a impossibilidade de se reencontrar a pessoa, ao menos em carne e osso, aqui na Terra. Por outro lado, significa a fatalidade de o morto já não ser outro além de tudo o que pôde ter sido. Mesmo que saibamos possuir um limite finito de vida, imposto pela natureza, nem sempre é bem-vinda a ideia de que a nossa hora chega e, algumas vezes, traumática a consciência de que se foi para sempre alguém que amamos. Pode, sem dúvida, conceder a morte o devido descanso a uma pessoa, como se costuma dizer, “não morreu, descansou”, como forma frequentemente de aliviar mais a nossa alma do que a dos mortos. Os sofrimentos que nos inflige a vida suscitam, em certos momentos, a impressão de que a morte seja uma libertação, um repouso, um alento ao que deixa de fazer sentido, sobretudo quando a dor se torna a regra, e não a exceção, durante a existência. Requiescat in pace: repouse em paz, diz o epitáfio latino. Isso contudo não retira a tristeza de quem fica, a sensação de que lhe foi roubada do horizonte da existência uma companhia, ainda que para o vivo possa também representar um alento, quando é o caso, por exemplo, de se ver livre das responsabilidades e dos sacrifícios em relação àquele que regularmente sofria. Mas ao contrário de resignação e alívio, pode a morte exigir a ação de quem permanece neste mundo, pela revolta contra uma injustiça, a exemplo de Hamlet, ao ouvir do fantasma de seu pai que sua morte foi planejada, um complô homicida, para lhe tomar o trono. As composições do rapper Sabotage traduzem, em várias passagens, a revolta e a perplexidade do que significou a partida dos amigos e irmãos do Canão, sua comunidade: “até o Loquinho não se despediu de mim, deixou sozinho, parte do Canão Deus levou." (País da fome). Sabotage também não se despede dos amigos, é assassinado. Ao crente ou ao cético, o absurdo é posto a nu quando ceifada toda a promessa de vida na flor da idade: “notícia ruim, tive que ser forte, trouxe-me saudade a imortalidade” (País da fome, 2016). Para isso serve fundamentalmente o luto: uma demora para o espanto que permanece, e se modifica. O luto é o tempo necessário de reconciliação com o mundo, porque é justamente o mundo, como diz Freud, que no luto “se tornou pobre e vazio” (Luto e melancolia, 1917). Os rituais fúnebres são, na maior parte das vezes, apenas um breve caminho de uma longa despedida. Qual o sentido do luto, aliás, senão justamente o de sopesar as diferentes impressões afetivas e metafísicas para quem fica sobre quem foi, a propósito de tudo o que há e o que deixa de ser?
     Duas histórias de nossa cultura são emblemáticas a respeito do direito e do dever dos ritos fúnebres. Elas nos chegam dos gregos. A história de Antígona de Tebas, filha de Édipo, e a história de Príamo, rei de Tróia, mais precisamente a cena de seu encontro com Aquiles, seu inimigo. Antígona é um drama trágico escrito por Sófocles, representado em 442 a.C.. Príamo, pai de Heitor, aparece na Ilíada de Homero, o poema épico do século VIII a.C. Comecemos por Antígona: a lei de Creonte, rei de Tebas, não é persuasiva o bastante para impedir o ímpeto de Antígona de prestar as honras fúnebres a seu irmão, Polinices. Nem sua irmã, Ismene, consegue demovê-la, assim como Hémon, filho do rei, não consegue convencer o pai de suspender o edito e a condenação. A esse drama antecede a história de Polinices e Etéocles, irmãos de Antígona. Polinices se junta a cidade de Argos e entra em guerra contra Tebas, após ser traído pelo irmão Etéocles, que não lhe cede o trono, segundo um acordo de alternância no governo da cidade. Ambos morrem no combate, um pela mão do outro. Para Creonte, novo rei de Tebas, Polinices é um inimigo da pátria, por isso a proibição de sepultá-lo, sob pena de morte: “não receba sepulcro nem lágrimas”, determina o rei. Para Antígona, antes de qualquer coisa, Polinices é seu irmão, a lei de Creonte é apenas um decreto, e as leis às quais a jovem deve obediência, em contrapartida, não são propriamente leis escritas, fadadas à contingência do tempo e às urgências da cidade: “não são (leis) de hoje, nem de ontem", diz Antígona, "mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram": são uma imposição sobretudo das divindades subterrâneas, leis portanto, divinas. Se um irmão atacava Tebas e o outro a defendia, como diz Creonte, a lei dos mortos, responde Antígona, é igual para todas e para todos. Além do que, Antígona se diz não gerada para odiar, mas para amar. A heroína é flagrada pelos guardas do rei em prantos diante de Polinices: verte três vezes vinho sobre seu corpo, como forma de libação, e lança sobre ele um punhado de pó ressequido da terra. Cumpre, portanto, os ritos elementares de despedida e é por essa razão presa e condenada pelo rei. Valer ler a tragédia.

Nikiforos Lytras, Antígona diante da morte de Polinices, 1865

     A segunda história, o encontro do rei Príamo com Aquiles, é contada no 24° canto da Ilíada. Aquiles já havia vencido Heitor, filho do rei troiano. Já havia ultrajado seu corpo, ao arrastá-lo inúmeras vezes amarrado em seu carro, para que Heitor não pudesse ser reconhecido e glorificado como herói em Tróia. Aquiles faz essa barbaridade toda para vingar Pátroclo, seu íntimo amigo, que havia morrido pelas mãos de Heitor. O fantasma de Pátroclo, aliás, aparece a Aquiles para lhe pedir um funeral menos apressado, sem o qual não conseguiria se juntar às almas dos mortos. Que o fogo, portanto, consuma de vez meu cadáver sobre a pira e que meus ossos sejam guardados em urna, e que junto a essa urna estejam os teus ossos, Aquiles, quando morreres: para que sejamos juntos sepultados. Eis o desejo de Pátroclo. No 24° canto da Ilíada, Aquiles recebe Príamo à noite em sua tenda, no acampamento próximo ao palácio. O rei se prostra diante do inimigo, abraça seus joelhos, em sinal de súplica, “beija as mãos assassinas que tantos filhos lhe mataram", no verso de Homero. Príamo invoca a lembrança do pai de Aquiles, que em terras distantes sente falta do filho, sofre por ele. Ambos choram. Príamo por seu filho. Aquiles por seu pai, mas também por Pátroclo. Por fim, Aquiles restitui o cadáver de Heitor ao rei troiano, dentro de um esquife, para ser recebido pelos seus conterrâneos nas honras fúnebres. São episódios emblemáticos de nossa cultura, porque lembram o valor de um corpo cuja presença já nos deixou. Era comum entre os gregos, vale acrescentar, colocar uma moeda entre os dentes do falecido, um óbolo, antes de ser cremado ou enterrado. A moeda servia de pagamento a Caronte, o barqueiro que conduzia as almas por um rio divisor de águas, entre os vivos e os mortos, até a margem oposta, templo de Hades. Luciano de Samósata, no século II de nossa era, já julga supérfluas, e um tanto ridículas, as cerimônias fúnebres: lavar e untar o corpo com os melhores perfumes, depois os gemidos, as lamentações, os murros no peito, as libações com vinho puro, a opulência dos túmulos, tudo isso é excessivo por uma razão evidente: a maioria considera a morte “o maior dos males" (Luciano de Samósata, Os funerais, c.185 d.C.). Embora possa haver caprichos, e mesmo exageros, o ritual é apenas uma preparação para o luto que continua e se transforma no coração de quem fica.
     Velado o corpo, basta enterrá-lo. Isso, claro, se tudo vai bem. Quando a normalidade vinga, a exceção da morte é rapidamente resolvida. Em uma sociedade moderna e capitalista como a nossa, os seguros cobrem tudo: a preparação do corpo e a cerimônia de adeus são terceirizadas. Quem pode pagar, mantém a visão das coisas fúnebres à distância. Assim como os velhos são mantidos à distância, porque fatalmente invocam aquilo com o que, em geral, a nossa sociedade não quer se comprometer. Um livro vale a pena ser lembrado, publicado em 1982. A solidão dos moribundos, de Norbert Elias, título pelo qual o problema já se explicita: os vivos, cada vez mais, pressentem a morte como coisa “contagiosa e ameaçadora”. Mas quando, ao contrário da normalidade, é a exceção que vinga? Nem o destino dos mortos parece garantido. 
Das duas, uma: ou o velório, ou o sepultamento, não são mais possíveis. A despedida é interrompida, não se pode ver nem velar a imagem da pessoa, de um irmão, de uma mãe. Ou ainda, não se tem como, nem onde, enterrar seu corpo, ou alguém para fazê-lo. Isso aconteceu na Itália, em razão do coronavírus: proibição e multa por participação em velórios, cadáveres em casas e apartamentos, a angústia de seus parentes para encaminhá-los à cremação ou ao cemitério. Isso aconteceu na maior cidade do Equador, Guayaquil, com o colapso de seus hospitais e necrotérios, a fratura do sistema público e sanitário, a falta de caixões e de coveiros. Nada disso à toa. A política de austeridade implantada pelo presidente Lenín Moreno, submisso ao FMI, não dá suporte à saúde pública, perverte os dados alarmantes, militariza a província de Guayas e a declara, fim de março, Zona de Segurança Nacional, quando efetivamente o governo já perdia a conta dos óbitos em razão do inimigo sem pátria que, por sua vez, é capaz de ampliar a subcidadania dos vivos aos mortos. Se o corpo não permanece em casa por dias a fio, ele encontra seu leito na familiaridade da rua, na calçada em frente, infectado e interditado do sepultamento. Sem direito à cova, o quinhão que não falta sequer ao pobre, em tempos normais: "É de bom tamanho, nem largo nem fundo, É a parte que te cabe deste latifúndio" (João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina, 1955).
     Esse é um dos lugares de perplexidade no qual nós nos encontramos durante uma pandemia: a ausência do velório, o sepultamento interditado. Não apenas em uma pandemia, mas no olho do furacão de um governo do lado da morte, o que torna o desafio de viver duplamente perigoso. Paisagem já devastada por nosso necroliberalismo tropical: cada um por si e ninguém por todos. E ainda temos de lutar contra as informações falsas reproduzidas e enviadas pelo exército mercenário de robôs, mentiras creditadas e propagadas por seus fiéis, como uma tecnologia ideológica de edição de imagens e discursos, capaz de usurpar os dados da realidade, mais catastrófica para a civilização do que o vírus para a natureza. Culpa-se o comunismo chinês pela difusão da doença e não se pergunta por que vangloriam um país, como os Estados Unidos, no qual uma massa de gente vende o pouco que tem para pagar o leito de um hospital, por que no nosso país se cortam bolsas de pesquisa da universidade, por que se paga mal as enfermeiras e falta segurança e equipamentos para o trabalho, por que perdura uma emenda constitucional que congela o investimento público da saúde, por que foram dispensados os médicos cubanos: por que são médicos ou por que são cubanos? Guayaquil é aqui, só não queremos ainda ver. O novo ministro da saúde, para piorar a cena, considera não haver muito sentido o investimento em respiradores pulmonares. “O que se vai fazer com isso depois?”. O Exército já consulta as prefeituras sobre o número de covas e cemitérios, no mesmo momento em que muitas cidades e estados brasileiros reabrem shoppings e igrejas. Manaus recém adotou o sistema de trincheiras para o enterro em valas coletivas. Que faremos? “Vamos às atividades do dia: lavar os copos, contar os corpos e sorrir a essa morna rebeldia”. (Criolo, Lion Man, 2011). Vemos em contrapartida a política na sua pulsação originária, os movimentos sociais no comprometimento solidário e educativo, como os sem-terra e os sem-teto, a auto-organização das comunidades periféricas, como Paraisópolis. Uma das coisas que nos humaniza é a consciência da morte, a morte contra a qual resistimos, individual e coletivamente: por isso a invenção das artes e coletivamente: por isso a invenção das artes e ciências, por um lado, e a da política e justiça, por outro. A percepção da beleza e a busca do conhecimento precisam de uma medida a partir da qual a comunidade humana minimamente se entenda para, primeiro, sobreviver, e que assim encontre e compartilhe, se possível, a alegria de viver entre outros seres. Humanos ou não humanos, vivos ou mortos. Não somos os únicos nem os últimos seres deste planeta. E talvez a nossa vontade e a nossa soberba, o fascínio de nossa produção e de nosso consumo, o ruído de nossas máquinas e o esgotamento das fontes naturais, seja tudo isso o que menos importa para o mundo continuar não apenas a girar, mas a produzir significados, no campo ou na cidade. Coisa que somente a cultura pode fazê-lo, como eco de um passado que expande sentidos estéticos e comunitários: no alimento recolhido da terra, no canto religioso africano, na língua indígena ou no vernáculo latino da prosa de um violeiro. "Deixemos de coisas, cuidemos da vida, Senão chega a morte ou coisa parecida, E nos arrasta moço sem ter visto a vida" (Belchior, Na hora do almoço, 1974).

domingo, 12 de abril de 2020

O passado de uma ilusão


O que acontece quando uma pandemia atinge uma sociedade doente?


“Cuzão que não concorda c’o holocausto brasileiro,
Vive no condomínio, limpa o rabo com dinheiro.”
Facção central, A marcha fúnebre prossegue


Angelo Agostini, O carnaval de 1876
Charge para a Revista Illustrada
(Febre amarela, detalhe inscrito na roupa mortuária)



   Vivemos em uma sociedade doente. Essa doença tem um nome simples: ‘desigualdade extrema’. O nome é simples, mas são diversas e complexas as suas características, dentre elas: o racismo estrutural crônico, a insensibilidade moral endêmica e o colonialismo intelectual congênito. O Covid-19, como séria doença biológica, se alastra em uma sociedade que padece de uma séria doença social, e, na realidade, tanto permite tornar essa patologia social muito mais visível quanto, infelizmente, já dá mostras de que irá agravá-la, especialmente por conta da depressão econômico-social que já se insinua. Assim como o vírus pode se tornar mais sério e levar à morte os indivíduos contaminados que possuem doenças crônicas anteriores (as atualmente chamadas ‘comorbidades’), podemos prever que, no campo coletivo, a pandemia gerará efeitos econômico-sociais ainda mais nefastos quando afeta nossa população, que padece de sérias comorbidades sociais prévias. Portanto, a grave situação de saúde pela qual estamos passando se agrava ainda mais quando se soma a uma grave situação social, ocultada no imaginário social, especialmente da maioria conservadora e protofascista da classe média, não apenas por seu perfil econômico, mas também por sua função social primária de ‘capitão do mato’ entre a ínfima elite da ‘Casa grande’ e a maioria da população que habita a ‘Senzala’. 
   Há várias causas de nossa doença socioeconômica, a desigualdade extrema; mas é sobretudo aquilo que podemos chamar de totalitarismo de oligopólios sua causa principal. A definição mais simples desse totalitarismo é: a mega-acumulação de riquezas nas mãos de uma ínfima parcela da sociedade, o que não pode ser feito sem violência em massa e manipulação de significados dos fatos sociais compartilhados. Note-se: a acumulação de riquezas não se resume à acumulação financeira a níveis estratosféricos (incluindo aí o sequestro de quase metade do orçamento para pagamento de uma dívida pública nunca auditada), mas também a acumulação agrária (metade das terras agricultáveis na mão de menos de um por cento dos proprietários), a acumulação imobiliária (que alimenta tanto as condições horríveis das periferias quanto aumenta a população dos sem-teto), a acumulação midiática (a maioria dos meios de comunicação de massa na mão de poucas famílias e corporações), a acumulação intelectual (boa parte da população não tem acesso ao conhecimento), dentre outras formas de acumulação que seria ocioso mencionar aqui. Em suma: vivemos no país dos mega-oligopólios. 
   E se alguns descarados dizem que não somos os país mais desigual do mundo segundo certos rankings, nós certamente somos o país mais desigual do mundo quando consideradas as riquezas do país, concentradas em sua maior parte nas mãos de menos de 1% da população. Os frágeis atenuantes dessa desigualdade obtidos nos últimos cem anos através de lutas sociais duras estão sendo destruídos pela implantação do neoliberalismo em nosso país desde o governo do traidor da sociologia, Fernando Henrique Cardoso; uma implantação que teve um ritmo atenuado nos governos petistas, mas que voltou com multiplicada violência nos governos Temer-Bolsonaro. A união entre as diversas camadas das políticas de morte (necropolítica), aplicadas sobremodo aos excluídos, e das diversas camadas das políticas de manipulação de significados (semiopolítica), aplicadas a todas as camadas da população, poderia ser chamada, no caso brasileiro, de necroliberalismo: a aplicação do capitalismo neoliberal (que, em essência, promove a desigualdade) em um país já assolado por extrema desigualdade, a qual resulta na mais nova forma do totalitarismo dos oligopólios, regime tirânico que representa os cinco séculos de genocídio em massa da população pobre, seja esse genocídio praticado pela exclusão, seja pela violência estatal ou privada de todos os tipos, desde a intimidação psicológica até o assassinato em massa. 
   O modo como setores do governo e da sociedade brasileira estão lidando com a pandemia de Coronavírus é um espelho que reflete com uma clareza repugnante a doença social que já estava implantada em nossa sociedade. Diferente do que uma parte hipócrita das mídias pretende dizer (por puro interesse próprio), o atual governo é o mais legítimo representante do necroliberalismo brasileiro, ou seja, da última versão do totalitarismo oligopolista que tem assassinado direta ou indiretamente milhões de pessoas desde a chegada dos colonizadores europeus. A novidade do atual cenário consiste no fato de que, com a depressão econômico-social que se aproxima, as políticas de empobrecimento da classe média, que vinham sendo implementadas a conta gotas desde FHC, serão agora aceleradas, principalmente via sistema financeiro. 
   Com a eclosão da pandemia do Coronavírus, revela-se uma realidade nua, crua e indigesta: a parcela majoritária da classe média brasileira, de feição conservadora e protofascista – parcela que travestiu o gozo sádico de seu ódio aos pobres no discurso moralista da anticorrupção lavajatista que culminou no golpe de 2016 – irá agora pagar caro (com a vida ou com o bolso) por ter requentado a azeda versão “tradição, família e propriedade” da sociedade brasileira. Para além dos incontáveis mortos pela pandemia (número aumentado pelas práticas genocidas que emanam do planalto), essa classe média irá amargar um período de séria depressão econômica (e, por certo, psicológica) que se seguirá inevitavelmente à pandemia. Os estados de outros países, tão admirados de modo basbaque por essa mesma classe média, estão implementando uma multidão de medidas para atenuar a inevitável depressão econômica. Em lugar de fazer o mesmo, e sendo coerente com sua crueldade secular, o estado brasileiro, como extensão direta de nossa elite genocida, está implementando medidas que claramente protegem e até ampliam, por transações financeiras escabrosas, a mega-acumulação de riquezas. Nesse sentido, assim como a pandemia de Covid-19 atinge virtualmente a totalidade da população e não, como outras doenças, apenas suas camadas mais pobres, assim também, a depressão econômica em sua configuração brasileira (agravada ao extremo pela elite nacional) não apenas atingirá de modo duríssimo os excluídos que compõem de 70 a 80% dos brasileiros, mas também atingirá em cheio a parte mais baixa da classe média, ou seja, sua maioria. 
   Não nos enganemos com a ladainha anunciada dia e noite pelas mídias hegemônicas e pelas redes sociais: o choro de carpideiras segundo o qual todos sofrerão e terão de fazer o seu sacrifício para o bem da nação. Para o tão célebre quanto oculto 1%, esta pandemia será uma pedra filosofal capaz de transformar morte em ouro, em um tipo horrendo de ritual para santificar e esconder mais um de seus assaltos à riqueza gerada pelos outros 99%. É o baixo clero de grotescas figuras dessa elite quem exprime seu real pensamento: alguns milhares de mortos (afinal, em sua maioria idosos) são um “baixo custo” para manter o moedor de carne humana da economia neoliberal. Contudo, o alto clero dessa mesma elite, embora simpatizando intimamente com o pensamento daqueles outros, sabe que há várias razões pelas quais as medidas de isolamento são economicamente aceitáveis e, se bem conduzidas, bastante rentáveis para o terraço do edifício social brasileiro. Dentre estas razões estão: (1) é mais fácil manter seu poder econômico e social ao dizer mentirosamente que a vida está acima da economia do que declarando claramente o inverso; (2) as falências em massa abrem espaço para o reordenamento, ampliação e surgimento de monopólios; e, sobretudo, (3) as “dívidas de guerra” são a justificativa irrecusável para medidas econômicas mais duras que permitirão, especialmente através de tenebrosas transações trabalhistas, contábeis e financeiras, concentrar ainda mais a riqueza e “expurgar” os mais fracos de dentro de sua classe, abrindo mais espaço para a acumulação e para os sempre bem-vindos colonizadores (“investidores”) estrangeiros. Por fim, mas não menos importante, (4) a quarentena das massas, milimetricamente regada com alguma esmola emergencial para sua parte mais vulnerável, e controlada com algumas medidas de endividamento da classe média, evita profilaticamente que, caso a pandemia fosse deixada à solta, essa multidão doente e depauperada tomasse a desagradável decisão de fazer barulho nos portões de Versailles, ou, movida pelo ódio justo, ousasse pôr em prática alguma indesejável Queda da Bastilha, o que exigiria ainda mais dinheiro para pagar polícias, milícias, milicos, advogados e juízes em nome da necessária “garantia da lei e a da ordem”, bem como para consertar algumas de suas propriedades danificadas. 
   Essas indicações mostram como o necroliberalismo brasileiro (associação diabólica entre necropolítica e semiopolítica) se estenderá rapidamente da parte mais pobre da população para uma parte ainda indeterminada daqueles que atualmente fazem ou acreditam fazer parte da classe média. Horrorosa ironia da história brasileira: o Coronavírus, elemento de morte concreta, revela as entranhas podres do necroliberalismo brasileiro em suas políticas de morte (violenta ou socioeconômica) e suas políticas de deformação de significados que agora usam as metáforas da guerra à pandemia para realizar, na realidade, uma guerra da elite (através de seus prepostos políticos, jurídicos e midiáticos) contra a grande maioria da população brasileira. Portanto, na intensificação e ampliação das políticas necroliberais que já estão em curso, uma parcela ainda indefinida da classe média que odeia os pobres terá, na expressão de Achille Mbembe, o seu “dia de negro”. O terror psicológico que o vírus biológico impõe a toda a população é uma metáfora perversa e profética do terror socioeconômico que se abaterá sobre a maioria da população, lançada em um nível de escravidão financeira sem precedentes em nosso país e, provavelmente, dentre os países ditos em desenvolvimento. Para quem não acredita nesse provável futuro dantesco, basta comparar com atenção as atuais e futuras medidas de precarização do trabalho e da renda, a falta de políticas de crédito para micro, pequenas e médias empresas (inclusive com o aumento dos juros por parte dos bancos) com as rápidas medidas de “salvamento” do sistema financeiro, incluindo a obscena medida que permite a compra dos “papéis podres” (ou seja, dos prejuízos) das instituições financeiras pelo Banco Central sem nenhuma contrapartida econômica ou social destas mesmas instituições. 
   Talvez uma parte da classe média conservadora e protofascista que apoiou e apoia o atual governo aprenda pelo sofrimento algo acerca da hedionda crueldade da elite brasileira, embora isso seja improvável, uma vez que a estupidez, a partir de certo estágio, perde as próprias condições de reconhecer a si mesma. No que tange à parte mais progressista desta mesma classe, uma perigosa narrativa ingênua (talvez formada para evitar o desespero ou a depressão) já circula: a ilusão de que, por alguma confluência astral miraculosa, a atual pandemia produziria, como que por geração espontânea ou mutação mística da consciência moral, o colapso do capitalismo mundial e do necroliberalismo tropical. A realidade indica exatamente o oposto: a maioria da sociedade dilacerada pela depressão econômica e pelo luto da pandemia clamará com redobrado desespero ao deus Mercado pelo retorno do crescimento econômico incondicional e aceitará pagar uma dívida duplamente impagável, impregnando-se dos estúpidos e simplórios bordões fascistas que oferecem inimigos imaginários para aliviar seus sofrimentos reais. E enquanto os cardeais do Mercado estiverem gozando em concílio a sublime podridão de seus lucros recordes, será uma parte dessa mesma classe média depauperada pela depressão econômica e psicológica pós-pandemia que se ajoelhará, brandindo as mãos juntas, para trabalhar e consumir, em fervorosa servidão voluntária, beijando os pés dos seus carrascos e torturadores. Em lugar de esperar por uma mágica transformação do necroliberalismo brasileiro, a parcela progressista minoritária da classe média deveria, finalmente, chegar ao que Max Weber chamou de característica fundamental da modernidade: o desencantamento do mundo. Em nosso contexto isso significa: encarar a estrutura totalitária da sociedade brasileira e sua causa primária: a mega-acumulação de riquezas, esforçando-se para agir politicamente na direção de derrubar essa tirania, antes que seja tarde demais, se já não o for...
   O discurso e as práticas políticas genocidas exaltados e postos em ação pelo atual presidente e seus lacaios em relação à tragédia humanitária que está em curso entre nós desenham em traços grotescos a face mais visível do latente discurso e das práticas genocidas da elite brasileira, que já estão em curso há cinco séculos. No cenário atual, para preservar e ampliar seus oligopólios, a elite brasileira está impondo medidas econômicas e políticas que multiplicarão a depressão econômica desencadeada pela pandemia. Se atualmente a maioria da classe média consegue se defender do Coronavírus por meio de suas maiores ou menores possibilidades de isolamento, em breve a destruição social implementada pelo egoísmo criminoso da elite alcançará também estes, agravando ao extremo a doença crônica da sociedade brasileira: a desigualdade. Os atuais donos da Casa Grande lançarão também uma parte da classe média que os serviu, os admirou, os imitou e os defendeu na Senzala ou na vala comum. Em 2022 o calendário marcará os duzentos anos do ambíguo nascimento de um estado. Para quem tenha conseguido preservar ainda alguma sanidade mental, meditar sobre o passado de nossas ilusões conduzirá talvez a uma moral da história: a comemoração do bicentenário de nossa frágil independência será um espetáculo de luto e melancolia...


Nazareno Eduardo de Almeida 
Professor de Filosofia 
Centro de Ciências Humanas
UFSC

domingo, 29 de março de 2020

Anotações de quarentena II


Akira Kurosawa, Sonhos (episódio O túnel), 1990


"Sob esse ponto de vista, a atmosfera de nossa cidade modificou-se um pouco. A questão, porém, é saber se na verdade a modificação estava na atmosfera ou nos corações.”

Albert Camus, A peste, 1947


A conversa volta para o assunto do dia, da hora, de todas as horas. Como uma espécie de pedra por cujo peso Sísifo pode a qualquer instante ser esmagado. As tensões familiares também retornam, tão intensas por vezes como na última eleição. Que nos acontece afinal? Quando a morte serve de princípio à gestão pública, o vírus governa a favor, e este é nosso maior risco atualmente. Não se reconhece um inimigo em comum, nega-se o grau de sua ofensiva, e ele avança. Naturaliza-se a morte na mesma medida em que se despreza o contágio. Marx fala de um exército industrial de reserva: a força de trabalho excedente à produção garante o acúmulo do capital, justifica os baixos salários e, sobretudo, a massa de desempregados, o exército de reserva do mercado. O desprezo ao contágio, em nossa necropolítica tropical, garante uma reserva de mortos ao lado dos desempregados. O milagre de se estar vivo dá a coragem para se submeter às piores condições de trabalho. Para aquele que detêm o capital e os meios de produção, não se pode deixar de lucrar, ainda que se permita morrer. Por isso a campanha O Brasil não pode parar. Um discurso cujo caráter motivacional é perigosamente bizarro neste momento. O tom cinicamente solidário dirigido ao trabalhador, a suposta preocupação com sua fome, nesta propaganda, retira justamente a responsabilidade do Estado, a obrigação de protegê-lo, ao mesmo tempo que o lança ao suicídio como herói da pátria, inviolável a uma pandemia. A questão é: entre a promessa de desenvolvimento da nação e o lucro dos ricos, quem está disposto a morrer ou quem, pela sobrevivência, já não tem escolha porque nunca lhe foi dada? Por isso pode bem facilmente o trabalhador repetir o discurso suicida oficial e até mesmo se colocar na figura do herói, ou mais modestamente relutar contra o que passa a julgar covardia. Pode de manhã se culpar pelo risco de perder o emprego, à tarde achar que é só uma gripezinha e atender uma encomenda, à noite evitar o contato com seus filhos e ter pesadelos com o vírus. Como exigir coerência dos sobreviventes neste momento? Em nome da economia, o governo não precisa diretamente matar, antes, deixa morrer. A compra anunciada pelo ministro da educação de 450 milhões de álcool em gel para as escolas se afina a essa política da morte em dois sentidos: justifica o retorno das crianças aos colégios e autoriza a contaminação em série de quem estuda e trabalha no local. Deixa-se morrer, no limite, a própria escola, sobretudo as escolas públicas. Neste sentido, a emenda constitucional que prevê o congelamento dos investimentos públicos nas áreas de educação e saúde, aprovada ainda no governo Temer, logo após o golpe, e mantida pelo governo atual, é metaforicamente epidêmica, antes de o covid-19 vingar entre nós. A falência dos sistemas públicos de saúde, o recente e brutal cortes de bolsas de pesquisa das universidades, tudo isso não é apenas efeito da contenção de gastos e despesas, mas um projeto da elite para discriminar quem pode vender e quem pode pagar, seja lá o que for, diplomas, coachings ou planos de saúde. O vírus é a necropolítica continuada por outros meios. E o neoliberalismo uma das condições para essa política fundada na iminência da morte, e não na esperança de vida. O Estado mínimo permite ao Mercado máximo a escolha dos corpos que irão lucrar ou trabalhar, enriquecer ou morrer. O que vale afinal quando somos todas e todos ameaçados, quando respirar se torna uma dádiva? Que economia é esta que se defende a unhas e dentes patrióticos, quando apenas o patrão cumpre a quarentena ou sequer mora no Brasil? Que  discursos e poderes nos resigna como operários e por que parece surda a nossa voz para exigir o direito de se ficar em casa como dever urgentemente coletivo? Se milhões de autônomos já sobrevivem normalmente no limbo pandemônico, entre a falta de emprego ou o baixo salário, o que acontece agora se o Estado não os sustenta por uma renda mínima? Por que não redistribuir o lucro dos bancos, cujos funcionários retomam seus expedientes, enquanto seus acionistas mantêm higienizadas as mãos pelos juros garantidos? Em breve, se não nos cuidarmos e resistirmos como sociedade, contaremos com um grande exército de reserva ao lado dos leitos hospitalares. Como aquele pelotão nos Sonhos de Akira Kurosawa. Obedientes mas também obstinados, os soldados seguem o comandante, querem voltar às suas casas. Estão azuis, quase cinzas, com profundas olheiras de caveira. O comandante se comove por eles, diz ter sido preso pelo inimigo, lamenta e se culpa pela derrota: “Vocês são chamados de heróis, mas morreram como cães".

Jason de Lima e Silva

Publicado também na 
https://www.cartamaior.com.br/?/Especial/A-Pandemia-do-Capitalismo/Anotacoes-de-quarentena/251/46985

sábado, 21 de março de 2020

Anotações de quarentena I


Albrecht Dürer, Os quatro cavaleiros
do apocalipse (Morte, Fome, Peste e Guerra)
c.1497

Até para a mais perfeita beleza o desastre é lento. Mas não me parece justo contar sempre com o pior. A regularidade mede a vida. A regularidade da comida, por mais que não se pense no que se come ou como se mastiga o que se come. A regularidade dos prazeres, sensuais, afetivos, lúdicos ou intelectuais. A regularidade do trabalho e dos exercícios físicos. A permanência de um amor e mesmo a repetição de um conflito. O tédio pode servir quase de método para uma existência. Para o tédio a vida sempre se volta, no ócio de todas as suas regularidades cumpridas. Alegria também se sente, claro, pela simples razão de se cumprir um método pessoal para se viver, embora o tédio das horas livres pareça dar mais suporte à guinada da sorte do que o estado eufórico das ocupações ordinárias. Pretender antecipar o pior, em contrapartida, é desprezar a potência originária de seu significado, a do inesperado. Porque mesmo que se espere o pior que se possa imaginar, a reação frente ao fenômeno não pode ser calculada, uma vez que é impossível prever a circunstância, tanto de alma quanto de mundo, com base nas quais o fenômeno foi possível, e menos ainda as consequências de um acontecimento que, por si mesmo, já parecia insuportável. Temer desde sempre também exaure as forças humanas. Temer o que se esperaria de mal, temer o não previsto, tudo isso cansa demasiado o corpo e o espírito. Na maior parte das vezes, mesmo nas piores condições, o animal humano tem esperança. Esperança na redenção de algum deus ou na descoberta de um remédio contra uma ameaça ou dor iminente. O mais provável é se viver com aquilo com o que já se tem, segundo a força dos hábitos, no horizonte da fartura ou da escassez. Esperar muito é sofrer não ter jamais o que se espera. Porém, não esperar coisa alguma é como secar um rio e cobrir de cimento a fonte de todo entusiasmo. Que significa agora "atingir metas", "crescer economicamente" em termos individuais ou coletivos? Ainda se precisa comer e respirar. Quando se volta para si, na obrigação de ficar em casa, o maior risco é não encontrar nada. Ainda se precisa da cultura para matar a fome da alma e respirar boas ideias sobre o árido chão da terra. O humano ainda precisa do humano, a saudade de um afeto não completamente vertido sobre o coração, o hálito de uma história, o jogo, a brincadeira, o riso estrondoso, eco de seu próprio desespero.

Jason de Lima e Silva 

domingo, 4 de agosto de 2019

Mundo doido

A mim me pergunto
Que mundo doido esse
Traz o progresso no colo
Mas na morte investe
É veneno no solo
Vaticínio da peste
A mim me pergunto
Que mundo doido...
Inventaram o apocalípse
Prenderam o presidente
Ninguém vê, minha gente?
É juiz é procurador
Tudo amigo o mesmo complô
Pátria nossa quanta inversão
Quem condena é o ladrão
A mim me pergunto
Nunca houve ditadura
Nem racismo
Nem nada disso
Balela de comunista
O maldito, o postiço
A Terra é plana até na China
Mas uma coisa verdade
Pra eles tudo
Pra nós a latrina
Seu Deus acima de todos
É o rico em cima do pobre
Quem pode pode
Legalmente sorve
Nióbio, ouro e cobre
Neste mundo de ponta-cabeça
Com pressa de sucesso
O indígena é retrocesso
O carroceiro empreendedor
Perseguido o professor
O petróleo dão pros gringo
A Amazônia vira bingo
O certo tá do avesso
O avesso tá um vexame
A crença mata a ciência
E quem ensina é o pastor
Fim dos tempos dá dinheiro
Teologia da escravidão
Aposentadoria uma ilusão
A mim me pergunto
Que mundo doido é este
Ou a curva nasceu reta
Ou o direito é mesmo torto
Cruza a nau desgovernada
Esse poço sem fundo
Nosso Brasil profundo

Jason de Lima e Silva 

sábado, 2 de março de 2019

F. de Goya y Lucientes, Contra o bem geral, Desastres da guerra, c.1810

Moro, ondes moras?
Em um castelo sem muros?
Quem te pôs aí de herói desta republiqueta?
Mandas prender, mandas soltar?
Podes falar, mas não queres ouvir?
Basta delatar, condena

Dá pena
Não de ti, mas do fiel que te endeusa
É muita cena pra pouco patrão
Muito holofote para uma besta

Mas moroso não és
Tens pressa de fama e reputação
A primeira escorrega e a segunda te enterra
Não demora, espera

Juiz de arbítrios
virou ministro
E quanta laranja nesse quintal!
Mas o tagarela de carreira se cala
Sinistro, nada mal

Assim tiraste um presidente da eleição
E se copiam tua sentença
É para que o povo do cara esqueça
Quanta ilusão!

Moras na penumbra
O que vem, volta
Se te mexes, apavoras
Nem levanta, senta
A poltrona é pequena
Pra tanta pretensão

O tempo passa, a face afunda,
O povo se mata, o mito gasta,
E não acabas com a corrupção


Jason de Lima e Silva