domingo, 22 de dezembro de 2013



Esconda tuas virtudes no monte de argila, molde sempre o que aparece e guarde tua dor no coração da terra. Quando o vento se fizer brisa, cante para o deus que na árvore se esconde e peça às nuvens para te livrar do peso dos dias. Tudo é tão breve que toda leveza é cara. Nada espetacular chega para além do que já cultivamos e há sempre o risco de perdemos o que possuímos. Não há culpa nem salvação. Nem desculpas ao que não podes, nem esperanças ao que não tens.


Jason de Lima e Silva

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E nas rugas o traço de tua primeira dor.






E nas rugas o traço de tua primeira dor, o hábito de todos os silêncios, a compenetração da matéria em seu respeito ao sol, nuvens que cortam as linhas da memória no rosto e cruzam a intimidade de teu olhar, e na encruzilhada desses caminhos a fisionomia de tudo o que foste e sobeste abandonar, o mesmo perigo pressentido sempre, os amigos esquecidos ou esperados, os amores vividos por distração ou perdidos por muito zelo, assim vibram na testa teus pensamentos não pensados, e nas têmporas, a coragem de não lamentar, quantos fracassos te custou a vida, e há ainda lugar para mais uma ilusão.

Jason de Lima e Silva

quinta-feira, 7 de novembro de 2013





Como viajar sem se perder? Uma viagem antecipadamente pronta é tão segura quanto uma TV cujos programas escolhemos sem ver, quando o importante é não ser perturbado na abstração dos ruídos e das imagens. Tal viagem não passa de um deslocamento provisório da plena repetição dos dias comuns, com alguma curiosidade ao paladar, para não lamentarmos também tudo querer e nada fazer sentido. Ao menos, podemos guardar nas malas o vazio de nossos íntimos e compartilhar apenas os cartões postais de uma felicidade representada. Afinal, quem de fato está preparado para cultivar os mais simples gestos do mundo com outros e, ao mesmo tempo, viver os perigos a nos dar sempre e gratuitamente a vida, só para nos devolver seu gosto? O breve tempo de nossa passagem no espetáculo vivo dos lugares distantes nos coloca à cena o personagem que sobe ao palco para um dia deixar o mundo: sem ter a chance de refazer o drama. E assim é a vida, diz para si o viajante, em sua terra ou fora dela: tudo é efêmero. Perder-se é poder contemplar o contínuo sonho das coisas nos seus devidos lugares e mais uma vez experimentar a razão de nada mais voltar a ser como era antes. E nem nós sermos mais os mesmos.


Jason de Lima e Silva




Crônica de uma viagem inventada



Em Porto, paramos à frente da igreja da Sé, eu e meu amigo. A paisagem adiante era a de uma cidade sonhada, na qual tudo se encaixava, azulejo sobre azulejo, varal sobre varal, casario sobre casario, rústicos vermelhos e amarelos, com suas ruelas imperfeitas que se encontravam perfeitamente no caminho das pedras em ladeiras sem fim, sob escadarias solitárias e janelas em arcos de pedra. Eu havia de fato sonhado com a cidade há duas noites, ainda em Braga. E no sonho era noite. Suas casas, suas igrejas góticas e barrocas se moviam, seus palacetes e telhados de quatro águas, tudo se movimentava, morros e ladeiras subiam e desciam lentamente sob minha vista, e era preciso andar e chegar ao lugar certo na hora certa para nada se desencaixar, sobretudo quando repentinamente o movimento era interrompido. A cidade estava agora parada à nossa frente e nós nos lançamos escadaria abaixo, ao lado do átrio da Sé. Chegamos ao rio Douro



As embarcações são obras da natureza ou do homem? Os arcos da ponte metálica, os arcos de pedra da ponte medieval: tudo é um. Sentamos na ponta de uma mureta cujas pedras se alinhavam à distância. O rio seguia seu fluxo como um espelho de prata do céu nublado. Acendemos uma cigarrilha para admirar a cena e tomar fôlego, enquanto um casal de senhores nórdicos se aproximou. Trocamos uma dezena de palavras pelos olhos, sorrimos e nos acenamos. Seguimos a andança pelo cais, eu e o amigo, a ponte de aço se erguia como uma aranha metálica sobre nossas cabeças. Sentimos sede e nos entendemos silenciosamente sobre a necessidade de água quando, pelo instante de uma eternidade, me vi dentro de um sonho que não era o meu sonho, mas o sonho que jamais havia sido sonhado por qualquer alguém, por qualquer eu convicto de si mesmo, porque era justo o sonho de todas as vidas humanas. Era preciso firmar o passo naquele mundo de fantasmas que era a mais íntima realidade da existência, a ilusão de todas as esperas, a inquietação de todas as horas, a carência e o malogro de tudo, série de coincidências sem sentido, forças sem efeito, coisas que se perdem aqui e se encontram acolá. Era preciso firmar o passo de alguém que estava dentro desse sonho e seguia os passos de alguém sonhado a procura também de algo que se perdia. Água! Nem a sede mais me era real. O real: fragmento de chumbo de todas as consciências estilhaçadas, cristalina ficção e fixação de nossos sentidos. Firmar o passo atrás daquele personagem não garantiu ao personagem que o seguia a fortaleza contra a sensação de que qualquer coisa poderia ali acontecer, voar sobre o profundo silêncio daquela cidade misteriosa ou apenas se livrar imediatamente do maldito sonho, sentar-se num banco qualquer e gritar com toda energia para se acordar de vez, e apertar o próprio o corpo e agarrar-se à memória de uma vida pacata e à lembrança de um minguado de gente que lhe quer bem e jamais sonhou vê-lo enforcado. É preciso arrancar à força a corda que o mundo nos põe ao pescoço, mas é preciso senti-la muito bem antes de querer morrer. Identificamos a placa de uma loja de conveniências naquele sonho. O cara que nos atendeu assobiava uma melodia pop conhecida, com  tanta leveza de alma que compreendi a verdadeira razão da água neste universo. Atravessei porta de vidro afora e me deitei no primeiro banco de pedra para assim me saber num cais de uma cidade do mundo que falava a minha língua e me trazia o sangue dos mouros, o ruído de seus comércios e a visão dos franciscanos decapitados e das catacumbas de padres na igreja do outro lado da ponte, quando então senti os olhos suavemente queimados pela breve claridade do dia e reconheci meu amigo e a água oferecida que a cada gole me fazia mais vivo do que nunca, e mais uma vez, estranho o bastante para toda uma vida. 


Jason de Lima e Silva

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Amigo






Amigo. Esperas meu abraço amigo? Esperas algum louvor para teus feitos? Mas que feitos! Alguém bate à porta. Não há ninguém. E procuras ainda uma multidão de gente. Quem pode acolher tua mais íntima e valorosa estranheza? Guarda-a contigo a sete chaves! Muito vale o ouro porque se esconde no seio da rocha. E é preciso esculpi-la sempre e sempre para encontrar teu ouro. Ainda assim, talvez ele seja apenas uma pedra tosca no ruído do grande vazio dos ouvidos e dos corações alheios. Afinal, é tanta aparição de coisas que já viramos fantasmas. Amigo, eu sei, esperas ao menos um amigo para te sentires menos pobre neste mundo. E quem sabe, nobre o bastante para nada temer.

                                                                                                                         Jason de Lima e Silva

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Palavras




Palavras ditas para perdê-las. Palavras que caem dos bolsos e que chutamos por diversão. Palavras cuspidas em ouvidos ocupados. Palavras que esbarram em paredes e morrem de tédio. Palavras como fetos mortos na multidão. Palavras prontas para engordarmos. Palavras de duplas bocas como latas abertas repicadas por línguas agitadas. Palavras não lavradas pelo tempo. Palavras doentes de nada dizer para de todos falar. Palavras indigentes de silêncio. Palavras e mais palavras. Pobres palavras.


  Jason de Lima e Silva







terça-feira, 8 de outubro de 2013

Uma hora a menos




Uma hora a menos e meu silêncio é sagrado. É preciso cultivar a dor para um aceno vir do mar e levar ao vento tuas forças quase perdidas. Antes de anoitecer e as vagas subirem, estarás à maré sem compreender a névoa donde chegaste. Teus pés estão duros de frio, a terra ainda é fria, mas as mãos fazem fogo de tanto esfregá-las. A noite cai e as labaredas iluminam à tua volta: há anjos que se aproximam e perguntam o que sentes vivo. Não há como dizer, dizes, é preciso esfregar as mãos e sentir o fogo esquentar: por sorte, tenho o fogo. Os anjos riem e dizem haver muito perigo e amor no fogo. Tu não compreendes a língua dos anjos, mas não quer espantá-los e apenas sorri. Há pouco, vejam, meus pés estavam tão frios que eu mal os sentia, não sei de onde vim e nem para onde vou, sinto fome. Um vulto se aproxima e fala com a gravidade de tua voz, mais alto que o estalo do fogo: que sentido há nisso tudo! Os anjos sorriem mais uma vez, olham-se como sombras e desaparecem junto à chama que aos poucos se apaga. Adiante no céu negro desponta um planeta. É preciso andar, vencer o frio, saber-se humano. Nada além de humano.

Jason de Lima e Silva

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Conselhos do Tempo



Repousa teus olhos tristes sobre mim
e faça-me o coração de tua promessa
embora pareça longo o caminho da vida
Não abomines tuas insônias d’ Outrora
nem insista em te conheceres profundamente
quando profundo é teu próprio destino
  
Retorne à sombra de teu mais santo Cansaço
sem perder-te na névoa dos dias futuros
onde lá dormem tuas dores terrenas
E na sensatez de tua solitária Morada
aproveite o que na respiração da matéria
faz o viver de teu espírito
neste jardim onde entre mortos e vivos
Tu
singularíssima alma
move a errância da humanidade

Jason de Lima e Silva