Discutir crenças religiosas
é um tabu em muitas sociedades, inclusive a brasileira. Em muitas ocasiões,
discutir futebol e política também, como diz o ditado popular. Não sei qual a
razão disso, mas me arrisco a crer que essas questões geralmente são evitadas pela
maioria das pessoas por fazerem parte do que elas julgam ser um conjunto de
suas crenças fundamentais que dificilmente podem ser modificadas. Talvez seja
exagero considerar a preferência por um time de futebol uma crença, digamos,
estrutural (a não ser quando nos referimos a torcedores fanáticos), mas no caso
da crença em Deus isso parece ficar mais claro. Seja como for, penso que uma
crença que não possa ser debatida nem colocada em dúvida, na verdade não é uma
crença bem fundamentada, pois, se fosse, não teria porque ter medo de refletir
sobre si mesma. É importante observar que os extremos – o teísmo e o ateísmo –
entendendo por isso como a crença total ou a descrença completa na existência
de qualquer Deus, não faz muito sentido para quem se ocupa desses temas. Às
vezes as pessoas costumam tomar determinados conceitos teóricos e adotá-los
para si de modo exato, petrificado. Em política, por exemplo, é muito comum
falar de socialismo x liberalismo, mesmo sem jamais ter encontrado qualquer
nação socialista ou liberal no planeta. Em religião, da mesma forma, há os que
se consideram teístas ou ateus de modo inflexível. Mas, pergunto, como alguém
poderia firmar tão bem suas crenças na existência ou não de Deus? O filósofo
Denis Diderot, ao se deparar com a pergunta referente à existência de ateus
verdadeiros, devolve a questão ao seu interlocutor, respondendo: “e você
acredita que exista algum cristão verdadeiro?”.
José Viera, Duda pendiente (Dúvida pendente), 1998, óleo sobre tela
fonte: http://pintura.aut.org/SearchProducto?Produnum=82251 (Ciudad de la pintura
Na verdade, penso, o que
existem são graus de teísmo e ateísmo: temos razões para crer ou não na
existência de Deus, e essas razões podem oscilar em determinados momentos de
nossas investigações. Ou, mesmo que tenhamos fixado determinados argumentos
favoráveis ou desfavoráveis a esse assunto, os mesmos nos convencem apenas da
razoabilidade da existência ou inexistência de um Ser Supremo. Aquele que
acredita ter encontrado argumentos definitivos para um assunto tão misterioso e
incerto, ou é ignorante (no sentido de ignorar o estado da controvérsia) – e
certamente continuará assim enquanto não busca por mecanismos para fortalecer
as suas crenças – ou pode se tornar um fanático religioso, por não se permitir
a ouvir argumentos contrários. Acontece o mesmo em filosofia: se julgarmos ter
encontrado a verdade, simplesmente não daremos ouvido às outras visões de mundo
e permaneceremos fechados às nossas próprias crendices. É por isso que falamos
em ter opiniões, quando se trata de adotar uma visão de universo, e fé em
matéria de religião. A fé é oposta à certeza. Verdade é o que pode ser
demonstrado de modo objetivo a todos os seres humanos; o resto é chamado de
crença. A fé, portanto, longe de espelhar certezas e dogmas, vem sempre
carregada de incertezas e dúvidas. Como diz Miguel de Unamuno, “Uma fé que não duvida,
é uma fé morta”.
Flávio Zimmermann é doutor em filosofia pela USP e professor no curso de
filosofia da UFFS.
(doutor em filosofia
pela USP e professor da UFFS) https://www.facebook.com/flavio.zimmermann.9
Uma
das primeiras questões que vem à mente ao iniciante do curso de filosofia diz
respeito à utilidade do curso. Tal curiosidade certamente atinge também os que
se deparam com o assunto em questão em momentos diversos de suas vidas – na
escola, em um livro, num artigo de jornal como esse – ainda que em menor grau,
uma vez que o seu interesse pelo tema deva ser menos intenso.
Lembro-me
de quando estava no início da minha graduação e, ao ir à busca de um tratamento
a essa questão, ter encontrado satisfação em uma análise oferecida pela profa.
Marilena Chauí no seu famoso livro “Convite à Filosofia”. Mas, naturalmente, a
pergunta em torno da utilidade da filosofia continua nos atormentando, uma vez
que somos, enquanto estudantes de filosofia, frequentemente interrogados pelo
objeto do nosso estudo.
Existem,
é verdade, parâmetros comumente esperados pelo jovem ingressante no curso como
o de fazer uso da filosofia para transformar a realidade ao seu redor,
aperfeiçoar a sua visão do mundo atual, encontrar respostas aos problemas
pessoais e sociais que o atormentam, muitas vezes de modo semelhante à
utilização do conhecimento que se pode obter de uma determinada droga para
aliviar uma doença ou o conhecimento de um método de ensino para ser colocado
em prática.
Francisco de Goya, Murió la Verdad,Desastres de la guerra, 79, 1814/1815 fonte: Museo Nacional del Prado / https://www.goyaenelprado.es/inicio/
De
fato, é comum querer utilizar-se de concepções e pensamentos filosóficos a fim
de desatar os nós da vida diária, seja lá o que cada um entenda por
'filosofia'. Aliás, nos dias de hoje, todas as nossas realizações parecem
querer resultar num fim útil e vantajoso, seja para nós mesmos, seja para toda a
sociedade. Muitos procuram se envolver somente naquilo que possa gerar algum
tipo de lucro financeiro para si e sua família, já outros buscam outras formas
de vantagens: uma sociedade melhor, seres humanos mais justos e honestos. O
próprio pensamento científico só parece chamar a nossa atenção quando resulta
em algo útil para a humanidade. Já se viu muita gente perguntar, indignada,
pela necessidade de tanta pesquisa em torno da vida em outros planetas ou sobre
a origem do universo, justamente por acreditar que tais investigações não
melhorariam as nossas vidas. Se levarmos a questão adiante, muitos estudos
mostram que o interesse das pessoas pela religião hoje em dia está mais ligado
à busca do bem-estar pessoal e de uma vida terrena mais tranquila do que um
amor incondicional a um Ser Supremo.
Deveria
também a filosofia se render às exigências do nosso tempo e mostrar-se útil
neste aspecto? Mas não faz sentido dizer que a filosofia deva se reduzir a um
tipo de pensamento; ela busca por uma definição sistemática e coerente de
pensamento humano. Não poderia então a filosofia ao menos apresentar-se como um
conjunto de definições no qual se possam extrair preceitos de vida? Ainda que
uma das áreas da filosofia – a filosofia prática – tenha como tema investigar os
princípios abstratos sobre os quais se funda o comportamento humano e a
formação e associação de indivíduos em comunidade, tais princípios dificilmente
seriam aplicados na vida prática de modo eficaz e qualquer tentativa desta
natureza pode nos levar a sérios desvios e má interpretação dos princípios
filosóficos. Não nos esqueçamos o quanto antissemitas julgaram estar utilizando
fundamentos da filosofia de Nietzsche e ditadores socialistas a filosofia de
Marx!
Ainda
assim, parece razoável julgar que a filosofia pode e deve ser usada para nos
ajudar a desembaraçar questões da vida prática, detectar e denunciar falácias
nos discursos da vida comum, encontrar coerência nos sistemas políticos ao qual
pertencemos, buscar dirigir nossas decisões dentro de uma teoria de
comportamento moral. Mas sejamos prudentes e cuidadosos! A rigor, a ética e a
filosofia política nos fornecem princípios abstratos e metafísicos referentes
ao modo como as pessoas e sociedades se organizam ou deveriam se organizar.
Entender o seu funcionamento no cotidiano é tema próprio das ciências sociais e
políticas. A filosofia mais propriamente busca por um sistema político ideal,
anseia por uma explicação de como pensam e se organizam os indivíduos ao nosso
redor, problematiza as soluções filosóficas apresentadas pelos clássicos, nunca
de um ponto de vista de como as coisas acontecem na realidade, mas sim
verificando se seus princípios são coerentes, se suas conclusões se seguem
logicamente de suas premissas, se as bases ou pontos de partida do seu sistema
são válidos ou plausíveis. Este pequeno ensaio, embora longe de adotar o rigor
exigido de um texto filosófico, deverá também ser encarado de modo crítico
pelos seus leitores, mesmo não recorrendo a fatos, apenas a ideias.
Francisco de Goya, Si resucitará?, Desastres de la guerra, 1814/1815 fonte: Museo Nacional del Prado / https://www.goyaenelprado.es/inicio/
Pode-se
dizer que a filosofia, ainda que seja uma criação humana, não surgiu
propriamente para atender aos interesses de determinados homens ou de uma
época; talvez nem mesmo da humanidade. Filosofia é a busca pela verdade, e
verdade não responde aos anseios de um contexto histórico apenas, nem
necessariamente precisa agradar a nossos interesses particulares. Ainda que o
acesso à verdade pudesse gerar em nós angústia e desconforto, nem por isso
deixaríamos de procurá-la, sob pena de extinção da própria filosofia.
Seja
como for, a filosofia em si e o uso que podemos fazer dela talvez não andem de
modo tão separados e independentes um do outro. Vejamos. Se procuro pela
verdade, mais faço uso do meu intelecto e mais preparado estarei para enfrentar
os desafios da vida. Quanto mais me debruço na busca pelo saber, mais apto me
torno para analisar perspectivas políticas e sociais vigentes, e mais
habilitado, consequentemente, estarei para refletir sobre a minha própria
situação dentro do espaço em que vivo. Longe de me dar mecanismos e ferramentas
para transformação pessoal e social, lugar hoje ocupado pelas ciências humanas,
a filosofia e o uso puro da razão, ao elevarem a minha atenção a questões que
se encontram para além de nossas preocupações cotidianas, são os únicos
instrumentos que podem me capacitar na elaboração de raciocínios ordenados,
rigorosos, colocando-me em harmonia com as reflexões mais sutis e abstratas da
humanidade e me unir mais estreitamente aos pensamentos mais brilhantes da
história. Se há alguma coisa a ser extraída do bom uso da razão é tão somente a
própria habilidade e competência de bem raciocinar, que pode naturalmente ser
utilizada para outros fins. Mas é preciso paciência e maturidade! Buscar a
utilidade imediata nas coisas só me trará frustração; já o uso desinteressado
da razão na procura pela verdade poderá me tornar mais hábil a raciocinar sobre
os temas da vida comum.
Paul Klee, Angelus Novus, 1920, óleo e aquarela sobre papel
“Há
um quadro de Klee que se chama Angelus
Novus.
Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara
fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o
passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe
única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos
pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos.
Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força
que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente
para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas
cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.
Walter
Benjamin, Sobre
o conceito da história,
tese 9, 1928. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica,
arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987,
Já ouvi algumas vezes o comentário de não haver diferença entre ser de esquerda ou ser de direita na
política, simplesmente porque todo o político é corrupto ou se corrompe no
poder. Poder e corrupção retumbam como pleonasmo, ao passo que esquerda e
direita soam como um apanágio sem efeito, na rejeição prévia da política. Essa
opinião apressada serve de condição para um resultado intrigante de nossa
democracia: são eleitos empresários, e não políticos. O caso de Doria em São
Paulo. Notem, não que o empresário seja incompetente para virar político,
sobretudo num sistema capitalista, mas a compreensão de sua atividade pública
será de ordem privada: sobrepor o lucro de alguns à distribuição dos bens
produzidos, investir nas habilidades do indivíduo mais do que educar para a autonomia,
ampliar a renda no mercado financeiro no lugar de fortalecer economicamente o
estado para os serviços públicos. Além da submissão ao par política-corrupção, há mais razões para apressadamente alguém supor
o fim da dupla direita-esquerda entre
nós: a abertura da Perestroika em 1986, a queda do muro de Berlim em 1988... Com
o recente falecimento de Fidel Castro, um jornalista escreveu sobre a morte da esquerda. Quanta pressa para escrever!
Por que reduzir o amplo sentido histórico da esquerda à experiência malograda
ou democraticamente infeliz do socialismo no mundo? Se a esquerda morreu na
história, por que haveria ainda pessoas, movimentos e partidos que defendem algumas
pautas de seu legado? Qual a lógica de palavrear aos quatro ventos ser hoje no
Brasil obrigatório ser de direita, tal
como disse numa entrevista Olavo de Carvalho, cuja fama não o fez filósofo? Aliás,
como ele consegue a façanha de atacar as ditaduras de esquerda e afirmar simultaneamente
a obrigatoriedade de uma única via na política do país, um único horizonte? Mas
por que, afinal, a oposição entre direita e esquerda permaneceria como a mais
adequada para representar a estrutura e a dinâmica da política? No caso do
Brasil, compreender tal distinção me parece tarefa urgente: saberemos de onde
falamos ou com quem estamos quando nos posicionamos contra algo ou contra
alguém. Mas vamos aos filósofos! Que nos deem alguma luz em tempos de trevas! Fernando
Savater é um nome cuja reputação está à altura dos livros que nos tem deixado.
Ano que vem, o pensador basco completa 70 anos de idade. Não são poucos seus
livros, fora os artigos, entrevistas e conferências. Desperta e lê, publicado em 1998, chegou-me pelas mãos de um
estudante. Tão fluente quanto variado em termos de assunto, encontro nesta obra uma
resenha intitulada Esquerda e direita,
que trata, por sua vez, de um livro de Norberto Bobbio, publicado quatro anos
antes, chamado Direita e esquerda, razões
e significados de uma distinção política. No auge de seus oitenta e quatro
anos, em Direita e esquerda, Bobbio
demonstra e descreve histórica e axiologicamente o sentido de tal distinção no
vocabulário da política, justamente para preservá-la. Somente ao fim do livro, o
pensador italiano afirma sempre ter se considerado um homem de esquerda e comenta, com uma pessoalidade não muito comum em
seus escritos, que se ocupou da política por uma razão fundamental: o
“desconforto diante do espetáculo de enormes desigualdades, tão
desproporcionais quanto injustificadas, entre ricos e pobres, entre quem está
em cima e quem está embaixo na escala social...”. Desconforto, claro, que nem
todos sentem, e se o sentir, não necessariamente estudaremos ou faremos
política. Mas Bobbio o sentiu e se dedicou a pensá-lo. Talvez também mantivesse
consigo a ideia de Aristóteles de que uma cidade não seria feliz sem um cidadão
feliz, e o contrário também seria verdadeiro: afinal, quem poderia ser feliz em
um estado infeliz? em uma comunidade ou país nos quais dominasse a injustiça, o
medo e a ganância?
Se
Bobbio defende a distinção entre direita e esquerda, é porque considera o
centro como medida entre os opostos e o fato de que a oposição não corresponda
a conteúdos permanentes, mas (arriscaria eu dizer) a campos semânticos no
interior dos quais os sentidos são ampliados, deslocados e redefinidos
historicamente. É mais uma topologia
do que uma ontologia política, comenta Bobbio, e cita Marco Revelli: “não se é de
direita ou de esquerda no mesmo sentido em que se diz que se é ‘comunista’, ‘liberal’
ou ‘católico’”. Se topologia corresponde a lugar e não substância, razoável haver diferença entre uma esquerda liberal revolucionária
oitocentista e uma esquerda social democrática. O fato é que como territórios do pensamento,
a díade esquerda-direita representa ainda a dicotômica estrutura da política: esse
é o argumento de Bobbio e ele é justificado pela tendência na história do
pensamento político moderno de perceber a contraposição entre uma visão igualitária e horizontal, no caso da
esquerda, e uma visão vertical e inigualitária,
no caso da direita. O discurso de emancipação
do outro e a luta contra o poder opressivo e os privilégios de casta, raça ou
classe, através do qual se situa a esquerda e, em contrapartida, a defesa do
passado, da herança e da tradição,
como é habitual à formação da direita (daí provavelmente a exaltação dos
brasões de família, a menção à glória dos antepassados, o apego às origens). Há
naturalmente movimentos e partidos políticos que no centro se encontram, em
razão de pautas e interesses eventualmente ajustáveis. Foi no centro que PMBD e
PT se encontraram em 2010, por exemplo. Mas o projeto político Mais mudanças mais futuro na candidatura
de Dilma em 2014 não teve coisa alguma a ver com o programa do PMDB Ponte para o futuro. A improbabilidade
de concílio entre um e outro, aliás, foi uma das causas fundamentais para a
usurpação do poder soberano ou, em outras palavras, para o golpe de estado na
democracia brasileira. O próprio Temer o admite, em Nova York, num almoço na
sede da American Society, no dia 21 de setembro deste ano, ao dizer que a
recusa do programa de seu partido teria instaurado um processo de impeachment
para efetivá-lo como presidente. Quem se importa (ou se importou) com pedaladas
fiscais! À parte o fato, se é possível direita e esquerda se encontrarem no
centro, em contrapartida, há movimentos e partidos que se avistam apenas na
extremidade, pela negação do outro e afirmação absoluta de si, lá mesmo onde,
no limite, o diálogo é interrompido pela ameaça e a política é substituída pela
guerra. Igualdade e hierarquia, também é outra tendência
para a distinção entre esquerda e direita. Mas se a igualdade se converte em
princípio de um autoritarismo ou nivelamento da maioria, ser de esquerda significa,
ainda, não aceitá-lo, quer dizer, não aceitar qualquer ditadura que o valha, de
esquerda ou de direita. Então, o que significa ser de esquerda? Voltamos à
pergunta de Claire Parnet a Gilles Deleuze em 1988. E para encerrar, Fernando
Savater, quem educadamente pede licença, ao fim de sua resenha, para ser
tendencioso: “ser de esquerda é não ser de direita. E a direita, seja qual for
a justificativa partidária em que ela se ampare, consiste hoje (...) em
utilizar a brutalidade criminosa e a mentira para atingir objetivos talvez
louváveis em si mesmos; em alentar a discriminação social ou técnica em nome de
argumentos científicos, nacionalistas ou religiosos; em fomentar o puritanismo
paternalista em lugar de educar para a responsabilidade; em sacrificar qualquer
consideração ou ternura humana em proveito do máximo desenvolvimento econômico,
do triunfo da própria identidade cultural, da extensão do reino de Deus sobre a
terra ou de qualquer outra causa. É de direita querer que os países sejam
homogêneos, invulneráveis e ultraprodutivos a qualquer preço; a esquerda se
resigna ao diferente, ao incerto e ao frágil, mas exige que nenhum ser humano
esqueça a preocupação com os humanos,
chave de sua própria humanidade”.
É possível viver sem ilusões?
Se não, é razoável sustentar as mesmas sempre, durante toda a vida, sob o risco
de certo disparate entre a convicção íntima e os fatos, o deslumbre e a
frustração? Mais uma: quanto do real é possível suportar quando a desilusão se
torna maior do que o prazer de iludir-se e deixar-se iludido? Perguntas sobre
as quais por sorte nenhum filósofo detém o privilégio, afinal, quem já não
pensou que tudo seria melhor se...? Ilusão: o se permanece preso nos labirintos da linguagem, como a condição de
uma possibilidade não mais possível. A vida segue, o real não barganha, e desilusões
não passam muitas vezes de ilusões que não podíamos evitar sobre algo ou alguém
cujo sentido ou destino nunca seguramente nos pertenceu.
Vivian Leigh como Blanche Dubois, em Um bonde chamado desejo, Elia Kazan, 1951, com base na peça de Tennessee Williams, 1947, fonte: http://maxseesmovies.blogspot.com.br/2010/12/47-streetcar-named-desire.html
Cate Blanchett em Blue Jasmine, W. Allen, 2013, fonte: http://www.sonyclassics.com/bluejasmine/
Blue
Jasmine (2013) de Woody Allen conta a desilusão de Jasmine (Cate Blanchett)
sob uma sequência de quedas: perde o marido, o filho, o patrimônio, o dinheiro,
as amigas, quase tudo de uma vez. Mas não perde a pose, nem o impulso de mantê-la
a qualquer custo, quando precisa tudo recomeçar. E para não perder um homem de
boa posição, que casualmente surge e por quem se encanta, mantém-no iludido:
sobre seu passado, seu trabalho, sobre quem realmente é. “Posso ter floreado alguns fatos”, comenta
com sua irmã, “e omitido detalhes desagradáveis, mas os sentimentos, as ideias,
o humor... não é isso o que sou? as pessoas não se reinventam?”. Reinventar-se
aqui é uma tática para livrá-la de tudo o que foi e ainda é, já que nada lhe
restou, senão a ilusão de que tinha coisas e era algo: a mulher de Hal (Alec
Baldwin), o empresário bem sucedido de Manhattan, pai exemplar, homem sedutor,
filantrópico picareta. Mas como surge essa
personagem, Jasmine? Falando sem parar. Fala disparatadamente a uma senhora que
sequer conhece, do avião ao aeroporto. Nada de mal nisso: quantas pessoas não monologam
diante dos outros sem que precisem de ouvidos? Jasmine vai ao encontro da irmã,
Ginger (Sally Hawkins), cujos genes eram piores do que os
seus, segundo comentavam seus próprios pais. Quando chega ao endereço indicado em
San Francisco, toda a sua elegância destoa do cenário ao redor, como acontece a
personagem Blanche em Um bonde chamado
desejo,de Tennesse Willians
(1947): “Sua expressão é de
incredulidade, e ela parece chocada”. Blanche e Jasmine jamais cogitaram o
apelo às suas irmãs pobres. Blanche chega de Belle Rêve e
Jasmine ouve Blue Moon desde quando
conheceu Hal pela primeira vez. E se uma regula o desamparo pelo whisky, a
outra prefere a vodca, mais uns remedinhos. Augie, o ex-marido de Ginger, não
esconde o incômodo pelo aparecimento dessa irmã, e ele tem suas razões (mais
adiante vemos o golpe que toma de Hal, quem subverte a sua sorte). Mas “o que
ela entendia de finanças?”, pergunta Ginger, por impulso de zelo fraterno. “Bobagem,
não me venha com essa!”, responde Augie: “Fica anos casada com um cara envolvido em fraude
imobiliária e bancária, e vem me dizer que ela não sabia de nada. (...) quando
ganhava diamante e peles ela olhava para o outro lado”.
Jeanette "Jasmine" (Cate Blanchett), Alec Bawdin (Hal), Andrew Dice Clay (Augie) e Sally Hawkins (Ginger), em Blue Jasmine/ Fonte: http://www.sonyclassics.com/bluejasmine/
Técnica da ilusão: olhar para o outro lado. Não que Jasmine não soubesse quem era o
marido ou que sua especialidade fosse os grandes golpes: ela apenas olhava para
o outro lado. Clément Rosset publica em 1976 um ensaio sobre a ilusão: O real e seu duplo. “Na ilusão”, escreve
ele, “quer dizer, na forma mais corrente de afastamento do real, não se observa
uma recusa da percepção propriamente dita. Nela a coisa não é negada: mas apenas
deslocada, colocada em outro lugar”. A percepção é atravessada pelos fantasmas
do próprio desejo, ao passo que a realidade é vista como quem olha de soslaio algo
incapaz de obscurecer a convicção sobre o que somos ou nos acontece. O iludido
olha o que quer ver, e se olha para o outro
lado é para enxergar apenas o que não se sobrepõe ao entusiasmo de sua
fantasia. Pode até reconhecer algum inconveniente, mas não o associa a sua
escolha. Aceita então o fato, mas não seus efeitos. Sabe do que se passa, mas
não consente.
A ação do filme se dá neste
presente: morar com a irmã e seus dois filhos, compartilhar às vezes o espaço
com o amante de Ginger e seus amigos. Mas esse presente é interrompido por
reminiscências, cenas de um passado ainda recente. Os olhos de Jasmine então caem
num lugar desconhecido, sua expressão muda, às vezes fala sozinha ou xinga
alguém que não está na cena. E aos poucos seu drama nos é revelado. Uma de suas
primeiras lembranças é na casa de campo: vemos Jasmine com suas amigas e seus respectivos
maridos ricos, os quais se retiram do jardim com papéis em mãos, quando uma das
mulheres comenta: “Eles vivem se escapando do departamento de Justiça”. Jasmine
depois retruca: “Nunca sei dos negócios de Hal. Não tenho cabeça para esse tipo
de coisa”. E uma amiga fala da expressão ultimamente famosa: chama-se “olhar
para o outro lado” (to look the other way).
Não se trata de não ver
o que se mostra, mas de concentrar apenas no que não lhe afeta o desejo, medido
pela ilusão daquilo por cuja posse não haveria infelicidade. Tanto via e sabia Jasmine
que nada esconde dos filhos de Ginger, num bar. Bem curiosos pela reputação de
loucuras da tia, e assustados ao mesmo tempo, ouvem-na contar como tudo lhe desmoronou
rapidamente, a ansiedade, o medo da morte, os pesadelos, os remédios, o colapso
nervoso: “eu suspeitava que nem tudo o que Hal fazia era cem por cento legítimo:
tinha que ser idiota para não suspeitar que seu sucesso fenomenal era bom demais
pra ser verdade”. Vejam, ela não pôde negá-lo, nem no presente, nem no passado:
talvez até tenha se feito de idiota, e por isso mesmo não pôde encarar o que restou
à sua frente. Entre a vida proveitosamente iludida e o cerco inexorável do real,
a ação se vê paralisada, o passado repete o malogro, o presente está disperso e
o futuro não se abre: o mundo se torna maior do que todos os sonhos juntos e o
impacto da queda é proporcional à ascensão do mito inventado para si mesmo. Pois
a ilusão duplica o que há e o que somos. “No par maléfico que une o eu a um outro
fantasmático”, escreve Rosset, “o real não está do lado do eu, mas sim do lado
do fantasma: não é o outro que me duplica, sou
eu que sou o duplo do outro. Para ele o real, para mim a sombra”. Quem é
Jasmine senão a sombra de uma ilusão que se tornou mais verdadeira que ela
mesma? Senão o duplo de um outro perdido na memória, o fantasma de uma vida bem
aproveitada? Talvez o único ato propriamente seu tenha se realizado na plenitude
da vingança, o que dá justamente unidade a toda narrativa: eis o seu grande
lance antes da bancarrota, quando não mais pôde afetivamente olhar para o outro lado. Mas como suportar as
consequências deste feito sem volta? Entre as ilusões de si e as desilusões do
mundo, Jasmine chega em pedaços ao fim da história. Se ela mudou de nome porque
“Jeanete não tinha brilho”, após a trágica peripécia que a persegue na memória
e outra reviravolta no tempo contínuo de sua ação, Jasmine se torna blue, as ideias se confundem e as
palavras se misturam. “Em cada esquina cai um pouco a tua vida / Em pouco tempo
não serás mais o que és”, não canta Cartola? A ilusão da arte não duplica o
mundo por um além redentor, nem duplica o que somos pela representação de um
destino feliz. A ilusão da arte mostra no outro o que já está senão cindido, no
mínimo é tenso em nós: que caminho percorremos quando há muitos outros lados
possíveis, nenhum necessário e todos sem volta?
Jason de Lima e Silva
Artigo
originalmente publicado na revista Subtrópicos,
23, Florianópolis: Editora da UFSC, 2015:
Amigos brigaram por anos à frente,
familiares perderam o gosto espontâneo da convivência, casais jamais encontraram o
mesmo afeto. Inevitável. Política não é apenas um meio para agir e manter o
poder, nem somente um território de decisão e enfrentamento a respeito do que
nos interessa. É uma maneira também de sentir e compreender o mundo, de se
apaixonar pelas coisas, de aceitar o que é estranho ou recusar o que não parece
familiar, de considerar o outro como fim ou defender sempre e apenas o que é
seu. Por isso o coração bate forte quando temos responder a juízos cheios de si
pelo simples fato de não aguentarmos mais ouvir bobagens e não aceitarmos o que
nos impõem como notícia, ideia ou regra de ação. Se metáforas ajudam, na pele
da política vemos a pluralidade de opiniões e até mesmo a polarização de ideias,
mas na sua carne, está a percepção.
Acentuadas as diferenças no território epidérmico, reconhecemos de que músculos
do tecido o outro se move. Lá também estão escondidas as suas paixões, a
história de suas amarguras, os medos de adulto ou os afetos infantis. Mas
fiquemos na superfície para entendermos o primeiro degrau do profundo. O
terreno da política se movimenta segundo a trama das percepções e dos valores,
cuja capilaridade ação e discurso revelam, nem sempre coincidindo um no outro,
o que faz de nós humanos a mais fabulosa e contraditórias das espécies. Todas
as brigas e intrigas que vivemos e testemunhamos nos últimos tempos, deu ao
brasileiro, algo valioso: a chance de conhecer melhor com quem partilha o tempo
e o espaço, e o quanto é necessário cultivar durante uma única vida o
mesmo tempo e o mesmo espaço. Progressistas ou conservadores, comunistas ou
reacionários, nas mais banais e vulgares dicotomias e qualificações reproduzidas,
por ofensas públicas ou ressentimentos privados, uma díade permanece como
sentido e urgência ao vocabulário da política: direita e esquerda. Permanece
não para acentuarmos os extremos e deduzirmos a inexorabilidade de uma guerra
civil, mas para sabermos de que lugar falamos ou somos mais impositivamente atacados.
Os extremos se encontram quando se perde de vista o centro. Mas a díade se
justifica para reconhecermos nossos horizontes de mundo. Na política, uma
coisa é fundamental: que interesses favoreces quando és contra algo? por
exemplo, a quem fizeram coro quando bateram suas imprecações as panelas
reunidas? ter sido contra a corrupção não favoreceu o golpe parlamentar à custa
da democracia e não favorece ainda mais os corruptos que também foram contra a
corrupção? antes da usurpação do poder por meios legais, com a artilharia
midiática avante, de que lado estávamos e de que lado permanecemos? O que
afinal faz com que alguém seja de direita ou de esquerda? Aqui a opinião perde
para o conceito. E perde não para a autoridade de um saber, mas para o estudo
das próprias dúvidas ao longo da história do pensamento. Consultemos então um
filósofo, na fabricação improvisada de seu conceito: Gilles Deleuze.
fonte da imagem: http://sismuc.org.br
Quando no abcedário de 1988 ele chega a letra G e é perguntado pela jovem
Claire Parnet sobre o que significa être degauche (ser de esquerda),
Deleuze diz não haver propriamente um governo de esquerda, embora possa um
governo atender as exigências da esquerda, o que já demostra uma diferença. Para
o filósofo há duas maneiras de se responder o que significa ser de esquerda. Primeiro,
trata-se de uma questão de percepção.
Aqui Deleuze usa a metáfora do endereço postal para ilustrar o que significa
antes não ser de esquerda: parte-se de si mesmo, depois vem a rua onde se mora,
a cidade, o país... e assim por diante. Parte-se de si mesmo numa situação
privilegiada, embora se saiba que há perigos e não será sempre assim, afinal
não é sensato aceitarmos as injustiças do mundo em nome da própria percepção,
comenta o filósofo. Ser de esquerda significa partir do caminho contrário: o
mundo, o continente europeu, a França... até se chegar à rua Bizerte e a mim,
diz Deleuze. Por isso “os problemas do terceiro mundo estariam mais próximos do
que os de nosso bairro”. “Não é uma questão de ser ou não uma boa alma”, apenas
de percepção. Em segundo lugar, ser de esquerda corresponde ao devir minoria. “A
esquerda nunca é maioria enquanto esquerda”. Por uma razão: a maioria pressupõe um padrão. No caso do Ocidente, diz
Deleuze, o padrão é ser homem, adulto, macho, cidadão. Mas “a maioria jamais é
alguém”, pois “o padrão é vazio, embora a maioria se reconheça nesse padrão”. A
seu lado, continua Deleuze, estão “todos os devires que são minoria”. As
mulheres não adquirem por natureza o ser mulher: há portanto um devir mulher.
Como há um devir homem, ou um devir criança... “A esquerda é o conjunto de
processos de devires minoritários”, “é saber que a minoria é todo mundo”, ao
passo que a maioria é um padrão vazio. Por isso, conclui o pensador, não foram
poucos os filósofos que desconfiaram da democracia. Lembrei neste ponto o caso de Sócrates e me surgiu uma pergunta: o devir filosófico de Sócrates não teria
chegado a sua plenitude na velhice, quando na prisão musicava as fábulas de
Esopo, pouco antes de tomar a cicuta, o veneno fatal, condenado justamente por uma
democracia? Se pensar diferentemente se converte em doutrinação ou política
partidária, não haveria aí um problema criado pelo padrão vazio de uma maioria cujos
privilégios ainda se sonham ou não aceitam perder, e cujo sentido não pode
durar para sempre, pelo devir de quem justamente pensa, e pensando, resiste?