domingo, 18 de fevereiro de 2018

Chame o ladrão, chame o ladrão!





Acorda amor

Acorda amor Eu tive um pesadelo agora Sonhei que tinha gente lá fora Batendo no portão, que aflição Era a dura, numa muito escura viatura minha nossa santa criatura chame, chame, chame, chame o ladrão

Acorda amor Não é mais pesadelo nada Tem gente já no vão da escada fazendo confusão, que aflição São os homens, e eu aqui parado de pijama eu não gosto de passar vexame chame, chame, chame
chame o ladrão, chame o ladrão

Se eu demorar uns meses convém, às vezes, você sofrer Mas depois de um ano eu não vindo ponha roupa de domingo e pode me esquecer
Acorda amor que o bicho é brabo e não sossega se você corre o bicho pega se fica não sei não Atenção, não demora dia desses chega sua hora não discuta à toa, não reclame clame, chame lá, clame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

Chico Buarque, 1974
http://www.chicobuarque.com.br/letras/acorda_74.htm

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Ódio, amor e fascismo

O ano não acabou e ainda se tem muito ódio a destilar. É preferível claro sempre viver e falar de amor, ainda que se tenha gastado a palavra como se gasta a lima ao bater à guisa de martelo. Vale amor para tudo, até para os crentes que odeiam a pluralidade de crenças ou a razoabilidade do ateísmo. Assim como vale a palavra paz para todos, até como promessa de quem lucra com a guerra. O ódio corresponde a um sentimento de aversão ou de repúdio por algo. Mas poderia haver um ódio justo ou injusto? Um ódio por exemplo à arrogância escarnecedora do ignorante? Um ódio à suposição de superioridade moral em razão de sua classe econômica ou linhagem familiar? O mais louvável, claro, é não odiar, já que esse tipo de sentimento diminui a potência a cada vez que o estômago se embrulha de asco, a exemplo de quando o barulho da propaganda televisiva torna odiável a televisão. É um afeto, sem dúvida, frequente e politicamente produzido, a exemplo de quando o tom melindroso de uma notícia em uma frase de reprovação tem por finalidade aprisionar seu espectador ao ódio que lhe interessa, para justamente neutralizar sua faculdade de pensamento. 

Cena do filme 1984, dirigido por Michael Radford, 1984, baseado no romance homônimo escrito por George Orwell, 1949

Mas não é difícil ser enganado, pelo ódio e pelo amor, e não é por isso que se desiste de amar, nem se está totalmente livre de odiar. O amor pode até mesmo servir de estratégia coletiva de luta, ou ponte para a transformação de si mesmo, quando seu sentido ultrapassa a romântica expectativa de ser amado na proporção ilusória de quem ama, para se converter na abertura pela qual o mundo se torna admirável, e a vida ganha algum sentido, por existirem pessoas que dizem muito pelo que simplesmente são e são muito pelo que significativamente deixam, estejam vivas ou mortas, entre a infinidade do céu e a escassez da terra. Em contrapartida, para dobrar essa sinistra vontade do ódio que leva alguém a deplorar o que lhe ameaça ou consigo não se identifica, não seria possível retirar desse afeto o princípio ético de suspeita contra tudo o que em nós aparece como desprezível, pequeno demais, tão sem graça perto daquilo que transparece placidez e profundidade, como a alma do oceano? Um verdadeiro amor-próprio pressupõe um desprezo ascético de si mesmo, uma libertação permanente de seu eu, de sua identidade, de seu louvor, como arte de trocar seus méritos pelo conhecimento da história, seus presumíveis talentos pelo estudo das artes, seu orgulho pela superioridade da natureza. E o fascismo inversamente começa quando se mitifica o vazio da brutalidade e se passa a buscar os culpados para as razões de seu ódio, unidade de todos os cansaços e megalomanias, ânimo incansável para destruir o que desconhece, incapaz de se metamorfosear como sentimento para amar o que lhe ultrapassa.

Jason de Lima e Silva

sábado, 11 de novembro de 2017

Barbárie e massificação

"(...) Comecemos pela palavra: barbárie. Os gregos identificavam os bárbaros como incapazes de pólis, ou seja, incapazes de deliberar e agir em razão de uma destinação comum, em razão de uma comunidade. Barbárie significa o reino das paixões sem lei: institui a tirania, de um lado, a escravidão, de outro, como aparece no Banquete de Platão.  Há um fragmento, em todo caso, que é preciso recordar em Heráclito: um filósofo que viveu entre o sexto e o quinto século antes de Cristo. Esse fragmento é um dos muitos tesouros que a tradição nos legou. Diz ele assim: “Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras (barbárous psychas) eles têm” (HERÁCLITO, 1989, fr.107). O que nos diz esse fragmento? Para aqueles que tem a alma bárbara, de nada adiantam seus sentidos, já que não dão sentidos ao mundo do que sentem. Pela primeira vez na história do pensamento, a barbárie não está situada na exterioridade de uma língua ou povo, mas na interioridade do homem, na sua alma. (MATTÉI, 2002, p.93). O que faz com que a alma seja submetida à barbárie? O fato, especialmente, de não se ver livre de seus afetos particulares para o que se mostra, e de não conseguir ouvir além do que já compreende, e por isso mesmo, se recusa a compreender. No seu segundo fragmento, Heráclito diz que a maioria dos homens vive uma inteligência particular. Essa prisão da alma em si mesma, sem abertura para o outro que é o próprio mundo, impede a alma de perceber as coisas tais como são. E um dos trabalhos da dialética de Platão no sétimo livro da República será o de erguer os olhos da alma para além de seu lodo bárbaro através das artes, tais como a ginástica e a música.  A alma, enquanto escrava de sua barbárie, não tem forças, nem direção e nem concentração suficientes para escalar a sabedoria rumo ao bem de todas as coisas, o bem que nos faz pensar. E Jean-François Mattéi diagnostica quatro traços de ressentimento, a partir dos quais se reconhece a atitude daquele que seria um bárbaro: 1. O desconhecimento da beleza de uma obra, a ignorância. 2. A denegação do que é elevado, a pretensão. 3. A incapacidade de criação, a impotência. 4. A vontade de destruição, a regressão (MATTÉI, 2002, p.21). Ignorância em relação à beleza, pretensão sobre o que é elevado, impotência para criar, regressão no destruir. Claro, toda a barbárie se institui no reverso e na dinâmica de uma civilização. Em outras palavras, barbárie e civilização não são senão signos que habitam e configuram a mesma humanidade. Como se um pêndulo na terra variasse seu compasso entre a medida da excelência e a pretensão da estupidez, a potência de criar e a obstinação de destruir ou nada significar. Quando Ortega y Gasset fala em direito à vulgaridade, ele fala, em outros termos, no direito de ser bárbaro (o que parece um contrassenso). O direito de opinar sem dar razões, o direito de falar sem saber quem atinge ou o que atinge. A contradição quase genética da democracia é permitir um discurso ou ação contra seu próprio princípio, ou seja, contra a liberdade. E sua morte começa quando está autorizado a qualquer um dizer o que julga pensar sem levar em conta suas razões, sem pensar, justamente, que aquilo que se diz a outros e se faz com outros não tem efeito se não se considerar a diferença. Mais do que a multidão, como Benjamin diz a propósito do conto de Allan Poe, a massa é que tem algo de bárbaro: na ação e palavra de cada indivíduo. Se o homem frustrado e isolado era a condição para o totalitarismo em Hannah Arendt, o homem-massa democrático também o é, sobretudo quando julga falar por uma maioria e age contra o que justamente garante a democracia. E vejam, não é difícil se instituir uma tirania em um terreno democrático, tal como previu Tocqueville em 1835, quando fala em tirania da maioria.  basta a ingenuidade de pensar não apenas que a maioria realmente pensa, mas de que pensa bem e do melhor modo. Se para Ortega y Gasset o homem-massa é o senhor satisfeito e vaidoso, para Tocqueville, a maioria tem adoração por si mesma. Adoração o bastante, poderíamos dizer, para não reconhecer as virtudes sociais das minorias ou, ao contrário, para encontrar facilmente o culpado de todos os seus males reais ou fictícios. Quando o discurso da maioria se volta contra o outro por ser o outro (outra forma de vida e de pensamento), infindável e imprevisível na sua diferença, quando o discurso da maioria se põe contra toda a pluralidade que faz o mundo ser um mundo comum, de seres iguais na sua própria diferença, neste momento apenas um único ego se projeta sobre o corpo individual e social: o ego patriótico, moralista, religioso, salvador da ordem ou do cidadão de bem, pouco importa qual seja (...)."

Trecho do capítulo A barbárie da cultura: massificação e imortalidade, por Jason de Lima e Silva, do livro Dos modernos aos contemporâneos: contribuições, organizado por Ernesto Giusti e Evandro Brito (Apolo Virtual Edições, 2017).



sábado, 14 de outubro de 2017

Big Brother às avessas

Luís Felipe Bellintani Ribeiro
(professor de filosofia da UFF)

A ideia desse texto é velha, mas só hoje pus mãos à obra. Não queria aborrecer a paciência alheia com uma obsessão que já me carcomera as reservas derradeiras de bom humor. E olha que bom humor é artigo precioso para um “existencialista trágico”, digamos, igualmente antirrealista e anti-idealista (sem substância real e sem sujeito transcendental, resta-nos o humor, oxalá, bom).
A obsessão chama-se “Rede Globo”, que só não é aqui uma metonímia stricto sensu por não se tratar exatamente de tomar a parte pelo todo, mas o quase-todo pelo todo.
As razões para voltar à obsessão, em detrimento da paciência alheia, são duas. De ordens bem diferentes, mas ambas funestas em suas fatídicas magnitudes.
A primeira, a morte de um blogueiro “sujo” (sujo = de esquerda, visto da perspectiva do pessoal da “massa cheirosa”), autor de textos de fina perspicácia, cuja leitura me era dos poucos lazeres restantes nestes tempos de truculenta ignorância. Soube hoje pela manhã que morrera ontem [29/06/2017] Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, blog que recomendo aos viciados em informação política que queiram se desintoxicar da desinformação televisiva.
À família Nogueira meus sentimentos, como expressão de imensurável gratidão pelos textos do Paulo. Na tentativa de reduzir a dívida que permanecerá sempre impagável, a promessa de, até que o câncer venha trazer também a mim a cessação de todas as aflições, lutar pelo sonho de um “Brasil escandinavo”, como o Paulo gostava de dizer, e contra o pesadelo de um Brasil escravocrata e colonial, do qual forças poderosas, dentre as quais a Globo, insistem em não nos deixar despertar.
A segunda razão para voltar à obsessão foi a leitura da uma matéria em outro blog sujo, O Cafezinho, de Miguel do Rosário, que falava de uma pesquisa sobre credibilidade da mídia de vários países pelas respectivas sociedades. Pasmem: a pior mídia do mundo (ocidental “democrático”, pelo menos), a brasileira, aquinhoou de sua respectiva sociedade, uma das mais desiguais do mundo, a medalha de prata, superada apenas pela mídia da escandinava Finlândia, que, diga-se de passagem, já é medalha de ouro em vários outros quesitos: uma das sociedades menos desiguais do mundo tem, não por mera coincidência, a melhor educação do mundo, pública, aliás, como boa parte de sua mídia. E tudo isso sustentado por regime tributário progressivo, ao contrário do brasileiro, em que uma minoria de ricaços – e os mais ricaços dos ricaços são exatamente os irmãos Marinho, da Globo – paga relativamente pouco imposto, e ainda tem o desplante de apoiar reformas, como a trabalhista e a previdenciária, que vão arrancar ainda mais o couro dos mais pobres.
Conclusão: ou a mídia de um país é boa, e por isso goza de credibilidade, ou a mídia de um país é muito ruim – não apenas ruim ou pouco ruim – e, por isso mesmo, forma um público tão estupidificado, capaz de bovinamente nela acreditar.
Na França, em que a mídia é mais ou menos (perto da do Brasil, é uma maravilha), a credibilidade na mídia é baixa.
Mas deixemos as razões para voltar à velha ideia e voltemos à velha ideia.
Ela tem a ver com uma imagem, já clássica, criada por George Orwell numa dessas ficções que fantasiam um futuro sombrio a partir das assombrações de um presente qualquer, estilo ficção científica. Trata-se da imagem do “Grande Irmão”, no romance publicado em 1949, cujo título é o ano em que esse futuro é projetado: 1984.

Cena do filme 1984, dirigido por Michael Radford, 1984, com John Hurt

Aliás, “Big Brother” é uma expressão que uma ampla maioria de brasileiros deve conhecer, embora apenas uma minoria talvez se lembre em que deputado votou na última eleição.
“Big Brother” no Brasil soa a coisa legalzinha, divertida – uhu! –, pois o assombroso do romance de Orwell virou exatamente o “sair da sombra” e ficar famoso num reality show da... Globo. A aversão à ideia terrível de que tem sempre um olho te regulando – não adianta fugir para trás de nenhuma moita – transmutou-se no contrário, no desejo de sempre ser visto por um olho qualquer: a distopia virou utopia. Haja câmera e holofote.
Pois é. No romance a imagem eminentemente negativa é associada a regimes totalitários, à falta de liberdade e privacidade individual, aquele velho espantalho do comunismo (ou socialismo, como no romance), regime que dizem por aí ter fracassado.
(Como se o capitalismo tivesse dado certo...)
Mas os tempos mudam, e do homem, esse bicho que não tem essência pré-determinada como o ornitorrinco tem, se espera qualquer coisa.
Estamos na aldeia global capitalista em 2017 e o futuroso ano de 1984 é um passado jurássico. E a aversão própria do espírito liberal à invasão de privacidade converte-se numa afecção de rebanho, fundada na evasão voluntária da privacidade. Viver não é preciso, mas bater selfie da própria vida para exibi-la no Face é preciso.
O fato é que o reality show Big Brother bombou em várias partes do mundo, para a graça de meia dúzia de espertalhões que patentearam o formato da ideia e a exportaram, mas parece que no Brasil ela adquiriu uma longevidade ímpar, pois devemos ser especialmente dóceis para consumirmos sem mensura tamanha mediocridade.
Mas não é por aí que eu queria traçar a relação entre a distopia de Orwell e a Rede Globo. Não é o programa Big Brother o que está em causa, mas o construto imagético orwelliano enquanto tal. Seu princípio é a otimização da função controladora pela hipertrofia da unidade do olho que vê. Um único vidente pode ver qualquer um a qualquer hora. Todos sabem que o Grande Irmão não está vendo o tempo todo – ele também deve dormir e se distrair – mas ninguém sabe quando ele está vendo, então ele pode estar vendo a qualquer hora.
Impossível não pensar no debate que os sofistas travavam nos séculos V e IV a. C., na diferença que Antifonte estabelecia entre estar sob o olhar de testemunhas e estar a ele encoberto, na imagem de Platão do anel de Giges, um salvo conduto que garantia um encobrimento absoluto, e no que dizia Crítias, de ser a noção de um deus onisciente uma criação dos poderosos que criam as leis em seu benefício, para que os súditos as obedecessem mesmo quando encobertos ao aparelho de controle do Estado, o contrário do encobrimento absoluto de Giges, um descobrimento (a-létheia = verdade) absoluto.


Harou Romain, Projet de peniténcier, 1840
Fonte:http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6262634t/f5.image 

Mas talvez exista uma engenharia ainda mais eficaz, em se tratando de um projeto de vigilância ininterrupta. Não há olho individual que suporte essa função de panóptico absoluto. Mais simples é hipertrofiar a unidade do objeto que é visto e delegar aos vigiados a pachorrenta tarefa da vigilância. Em rodízio, por turnos, por faixas, mas ininterrupta e coletiva vigilância. Ao invés de o Grande Irmão olhando todo mundo, todo mundo olhando a televisão.
Imaginemos uma prisão como a imaginada por Bentham, em que todos os presos estão sentados, voltados para o centro, para a guarita de vidro fumê do Vigilante, mas que agora encontra-se toda recoberta de grandes telões, desses que tem nos estádios de futebol. Oito ao todo, oito gigantes telões, norte, sul, leste, oeste, nordeste, sudeste, noroeste, sudoeste. Imagem de alta definição. Áudio de última geração. Muita cor, muito som, entretenimento, propaganda, “informação”, estes três últimos bem misturados até a total indistinção, 24 horas. Os prisioneiros não querem outra coisa, senão conseguir permissão para uma poltrona mais confortável.
O Grande Irmão deixou a fita rolando – eles que fiquem olhando – e saiu para curtir a vida naquela metade do planeta reservada ao 1% mais rico da população. Só com muito entretenimento aturam-se, cordiais, os 99% restantes que se acotovelam no outro hemisfério.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Do poema ao bruxo: a alquimia do professor

Jason de Lima e Silva

Preâmbulo para a abertura do Seminário PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência), que ocorreu no último sábado. Nesse programa coordeno, junto com o professor Cleber Duarte Coelho, o subprojeto Filosofia. A escola avalia o PIBID era o tema do encontro.

Fui convidado pelos organizadores do evento, a professora Adriana Mohr e o professor Hamilton Godoy, a apresentar algo breve como parte de sua abertura. Algo significativo, provavelmente para fazer jus à palavra seminário, que vem de seminarium e semen do latim, e que significa sucessivamente viveiro e semente, mas também escola e fonte. A ideia é ler um poema de Carlos Drummond de Andrade. Um poema que ele escreve a Machado de Assis, nem é preciso dizer, escritor de primeira grandeza na constelação da nossa literatura: negro, filho de pais escravos alforriados, nascido em 1839 na capital do Império brasileiro, Rio de Janeiro. O poema se chama A um bruxo, com amor. Ele foi escrito em 1959, poucos anos antes de nosso penúltimo golpe de Estado. Machado não é nomeado no poema, mas a Rua Cosme Velho onde viveu e todas as suas personagens, boa parte personagens femininas, reaparecem como fantasmas vivos na memória daquele que o homenageia, o próprio poeta. A ideia é comparar a figura do professor à figura do bruxo ou do alquimista, que dentro de seu seminário, dentro de sua escola, lança as sementes depois de colhê-la do mundo lido e observado, vivido e estudado. A forma de apanhá-las para o florescimento das potencialidades, ou para a transformação de seu ser, dependerá em parte da curiosidade de quem aprende, em parte da generosidade de quem ensina (sem falar das condições oferecidas pela escola, segundo uma política voltada para a excelência da educação pública e democrática). Vamos ver se vale a analogia. Se valer, serve o poema também de homenagem ao professor ou professora, que como alquimista recolhe e lança as sementes do mundo para cada qual resolver o seu próprio enigma, entre os livros e a vontade de amar, como diz o poema. Não é um bruxo do vaticínio ou da adivinhação, mas o sinal para uma destinação possível, quando o afeto de quem aprende se encontra com o valor de quem ensina, pela vontade de compreender o mundo físico ou histórico, linguístico ou social, matemático ou político. Fonte do diálogo entre a dúvida e o saber, o professor espalha no viveiro as sementes reunidas e depois desaparece da vista, dissolve-se, quer lembremos de seu nome, quer esqueçamos definitivamente de sua fisionomia ou de sua voz. Vamos ao poema.

René Magritte, O mestre-escola, 1954

A um Bruxo, Com Amor

Carlos Drummond de Andrade,
do livro A vida passada a limpo,1959

Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
e parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.